O Dia Internacional de Luta da Mulher.


Prof. Fernanda Moreira
Redação d'O Historiante

Nesse mês comemoramos o Dia Internacional da Mulher e basta uma pequena pesquisa no google para encontrarmos muitíssimas referências à data. São poemas, músicas, cartões e dicas de como presentear uma mulher no seu dia. Floriculturas, perfumarias, restaurantes, lojas de roupas e jóias lucram bastante nesse período. Mensagens ressaltam e exaltam o que seriam características femininas. Porém, se continuarmos a nossa pesquisa veremos imagens de mulheres nas ruas, protestando e lutando por seus direitos. Imagens novas e antigas. Ou seja, bem diferentes daquelas que apresentam o dia 08 de março apenas como uma data para dar e receber presentes ou alguns "parabéns pelo seu dia".




Em meio a essas diferentes formas de apresentar o "Dia da Mulher", esbarramos na velha pergunta: Por que existe um dia "da mulher"? Pergunta simples, mas de uma grande importância histórica. Tentando respondê-la, partimos para uma nova questão: Qual a história desse dia?

O dia 08 de março foi instituído oficialmente como o "dia da mulher" pela ONU (Organizações das Nações Unidas) em 1975. Podemos dizer que a data foi mais reconhecida do que instituída, pois já era bastante comemorada desde a década de 1960, no bojo das lutas por igualdade e pelos direitos das mulheres. No entanto, o histórico deste dia é anterior ao movimento feminista dos anos 1960 e 1970. A data remete a uma longa trajetória de luta das mulheres e também às diferentes reivindicações políticas, movimentos e lutas sociais desde meados do século XIX. A história do "dia das mulheres" é repleta de narrativas, disputas, controvérsias, mas também de muita luta e conquistas.

É comum vermos o dia 08 de março associado a um incêndio que teria ocorrido em 1857 na Triangle Shirtwaist Company em Nova York e provocado a morte de 129 operárias do setor têxtil que protestavam contra as péssimas condições de trabalho. Esse evento é até hoje apresentado como o fato que teria inspirado a criação de um "Dia Internacional da Mulher". No entanto, a forma como a história é contada apresenta algumas informações incorretas. O incêndio realmente ocorreu, mas não foi em 08 de março de 1857 e sim em 25 de março de 1911. Entre as vítimas estavam mulheres e homens. Seriam 146 pessoas mortas, 125 mulheres e 21 homens.

O acontecimento gerou grande comoção e não podemos desconsiderar sua importância e representatividade para as lutas trabalhistas da época - talvez mais para as lutas trabalhistas do que para os direitos das mulheres, já que a greve (na fábrica americana) fora um protesto trabalhista e não feminista. A tragédia foi importante para a conquista de melhorias nas condições de trabalhos. Entretanto, quando falamos em Dia Internacional da Mulher, não podemos creditar a sua criação ao incêndio na Triangle. No período em que ocorreu o incêndio, as greves eram constantes. Entre o final do século XIX e início do século XX, as lutas de trabalhadores e trabalhadoras eram fortemente reprimidas. Mas, pouco se sabe se o incêndio na fábrica americana foi criminoso ou não. 

Possíveis imagens do Incêndio de 1911
A própria ideia de criar um Dia Internacional da Mulher é anterior ao incêndio.  A criação de tal data está diretamente ligada a atuação de mulheres nessas greves, movimento operários e nos Partidos Comunistas. Em 1910, Clara Zetkin (1857-1933) - dedicada a luta das mulheres, militante do movimento operário e membro do Partido Comunista Alemão - propôs no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas (na Dinamarca) a criação de um Dia Internacional de luta da Mulher.

Muitas vezes, a proposta de Clara Zetkin aparece associada ao que seria uma homenagem aos mortos no incêndio na fábrica Triangle. Porém, sabe-se que Zetkin não definiu uma data específica. E, como vimos, a data do incêndio é posterior ao Congresso. Tanto que, em alguns países, o Dia Internacional da Mulher já foi comemorado em datas diferentes como, por exemplo, nos dias 28 de fevereiro ou 15 de março. Clara Zetkin também não foi a primeira. Alguns autores lembram que, a partir de 1908, mulheres socialistas norte-americanas começaram a celebrar um dia de luta das mulheres e apontam que em 3 de maio de 1908 foi comemorado o primeiro Woman's Day (dia da mulher) e, desde então, comemorar o dia da mulher teria se tornado constante no Estados Unidos.

Falando assim, tudo parecia bem fácil e simples. Mas, não foi. A vida dessas mulheres não era nada fácil. Por isso, para entendermos essas primeiras tentativas de se estabelecer um Dia da Mulher, é importante conhecermos um pouco do contexto e das lutas sociais no final do século XIX e início do século XX. Alguns autores situam essas primeiras tentativas de criar uma data comemorativa no mesmo período em que se desenvolvia a chamada "primeira onda feminista". Marcada tanto pelas lutas operárias bem como pelo movimento sufragista ( a luta pelo direito ao voto que não era permitido às mulheres).

Na luta contra as explorações sofridas no trabalho fabril, contra as péssimas condições de trabalho, os baixos salários e tantos outros abusos, muitas vezes os interesses das mulheres eram colocados em segundo plano. Pois, mesmo no movimento operário e socialista - que entre as bandeiras de luta constava a ideia de igualdade social - mesmo compondo as manifestações e greves gerais, as mulheres ainda eram vistas apenas como "donas de casas que completavam a renda dos maridos" e suas reivindicações eram consideradas menores diante das "questões gerais". Tanto que mulheres ligadas ao movimento operário, como Clara Zetkin, Alexandra Kollontai e Emma Goldman (entre tantas), tiveram que lutar e conscientizar dentro de suas próprias correntes políticas - entre os seus companheiros e companheiras de luta.

                                                 Clara Zetkin         Alexandra Kollontai   Emma Goldman



Por um lado, exploradas nas fábricas e, por outro, colocadas em segundo plano nas lutas por melhorias sociais. Essa era a situação das mulheres no início do século XX.
E o tão falado direito ao voto? O movimento sufragista ganhava força. No entanto, a luta pelo direito ao voto esbarrava numa chamada "igualdade legal". Isto é, garantia o direito ao voto, mas não alterava a sua condição de mulher explorada e seu "papel de submissa". Tanto que a ideia de apoiar a luta sufragista era vista de forma diversa entre as feministas operárias. Mulheres como Clara Zetkin e Alexandra Kollontai - mesmo fazendo ressalvas e com fortes críticas ao movimento sufragista - concordavam com a imediata importância do direito ao voto. Já a anarquista Emma Goldman considerava "que o direito ao voto não alteraria a condição feminina se a mulher não modificasse a sua própria consciência".

É importante destacar que no movimento sufragista não havia uma referência ou ideia de criação de um Dia Internacional de Luta da Mulher. A criação da data aparece associada aos movimentos operários e socialistas. Nos Estados Unidos, no ano seguinte à primeira organização de um Woman's Day, em 1909, o Partido Socialista Americano convocou o "Woman Suffrage Meeting", ou seja, um encontro em defesa ao voto das mulheres. A partir daí, a comemoração foi ganhando diversas datas. Já em 1910, o encontro contava com a participação de mulheres socialistas e não socialistas. Participaram diversas associações pelo direito ao voto e, principalmente, mulheres que trabalhavam no setor têxtil e participavam das grandes greves do período. No encontro não passaram de 300 mulheres presentes. Mas, sua existência foi fundamental para a criação de uma data de luta para as mulheres. Foi a partir do contato com as americanas que Clara Zetkin propôs a criação de um dia internacional da mulher.

  
                                                              A campanha pelo voto feminino

Mas e o dia 08 de março? Quando foi que esta data surgiu pela primeira vez?
Após a proposta da data ser apresentada por Clara Zetkin e como já ocorria nos Estados Unidos, cresceram os encontros organizados por mulheres para refletir sobre suas condições, conscientizar, repensar e organizar calendários de luta. Mas, o primeiro 08 de março surgiu associado a greve liderada por trabalhadoras russas, em 08 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário Juliano) . O protagonismo da greve foi das mulheres. Mulheres tecelãs que iniciaram o levante e depois pediram apoio aos metalúrgicos. Para muitos autores e teóricos da esquerda (inclusive Trotski), a greve das operários russas teria sido um dos primeiros momentos da revolução de outubro - ou seja, teria importância fundamental para a Revolução Russa de 1917. A data - que era o dia nacional de luta da mulher na Rússia - foi firmada como uma data internacional em 1921 na antiga União Soviética durante a Conferência das Mulheres Comunistas. Apresentada como uma data comemorativa e de luta. 

Ao longo dos 1960 e 1970 na chamada "segunda onda feminista", a data foi ganhando força juntamente com os diversos movimentos sociais e lutas por direitos que eclodiram no mundo. Foi nesse segundo momento que "as mulheres queimaram os sutiãs" - mesmo que o primeiro evento desse tipo não tenha sido uma queima. Já que as mulheres apenas levaram sutiãs para o local de protesto.  Foi o momento em que palavras como machismo, sexismo, patriarcalismo surgiram com mais força no discurso feminista - especialmente, após a publicação do livro "O Segundo Sexo" de Simone de Beauvoir. A crítica ao sexismo, a luta contra o machismo e contra as desigualdades entre homens e mulheres passou a ser definida não só no âmbito dos direitos políticos, trabalhistas e civis, mas também questionando as raízes culturais dessas desigualdades. 

Também não podemos esquecer a relação entre a luta pelo direito da mulher e a luta contra o racismo. Num mundo de "homens brancos" e que valorizava o padrão de beleza europeu, mulheres negras lutaram lado a lado contra sua condição de mulher negra submissa e vítima do preconceito racial. Luta, esta, que foi anterior à "segunda onda feminista".


A data de 08 de março ganhou força nesse contexto. Ao longo dos anos se tornou constante a comemoração. Porém, a data foi ganhando um apelo muito mais comercial do que uma proposta de luta. Na grande mídia, o Dia Internacional de Luta da Mulher passou a ser comemorado como o Dia da Mulher. Dia de dar presentes, parabéns, beijos e flores. Dia de valorizar a beleza e a força da mulher. As incomparáveis características femininas, especialmente, a de mãe batalhadora. Com esse tipo de comemoração perde-se o seu caráter de luta social. E, por vezes, retoma características machistas. É comum ver, em muitas mensagens de "feliz dia da mulher", a valorização da mulher que trabalha fora, cuida da casa, do filho e ainda consegue tempo para estar bonita e alegre. A guerreira. Ou a mulher que supera todas as dificuldades da vida, que supera todas as dores e segue resignada em seu papel de mãe e mulher. 

Ao chamarmos atenção para essa questão não estamos desvalorizando estas mulheres. Muito pelo contrário, essas mulheres precisam ser valorizadas, sim. Mas, é preciso questionar o porquê de (ao longo da História) passarem por tantas dificuldades e provações, o porquê de mulheres que não possuem estas características não serem consideradas "guerreiras" e "especiais" e o porquê de mulheres ainda sofrerem com a falta de respeito, com o machismo, etc. Por isso, não podemos deixar de lado o dia 08 de março enquanto um dia de luta ou enquanto um dia de questionar a nossa sociedade. É uma data que, por seu histórico, simboliza a luta por igualdade entre homens e mulheres (e não só a valorização das mulheres como muitos dizem), bem como a garantia de que todas as mulheres tenham o direito de viver livremente as suas escolhas, ou seja, "em que diferenças biológicas sejam respeitadas mas não sirvam de pretexto para a inferiorizar ou tornar submissa a mulher". 



Referências:
ALVES, Branca Moreira; PINTANGUY, Jaqueline. O que é o Feminismo. São Paulo: Brasiliense, 1985.
BLAY, Alterman Eva. "8 de março: Conquistas e controvérsias". In: Estudos Feministas, ano 9, 2° semestre de 2011. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ref/v9n2/8643.pdf
GONZÁLEZ, Ana Isabel Álvarez. Los Orígenes y la Celebración del Día Internacional de la Mujer. Oviedo: KRK-Ediciones, 1999. 
http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Repositorio/41/Documentos/Dia%20Internacional%20da%20Mulher%20em%20busca%20da%20mem%C3%B3ria%20perdida1.pdf



  


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