Incendio no Memorial: A decadência estético/cultural do Brasil exposta ao público




Profº Tiago Araújo
Redação d'O Historiante


Uma notícia estarrecedora estampa os jornais escritos e ocupam um tempo considerável dos jornais televisivos: um incêndio de grandes proporções no Memorial da América Latina que destruiu uma das obras primas arquitetônicas assinadas por um dos maiores pensadores e arquitetos do mundo (Oscar Nyemayer) e também obras de arte importantes como a tapeçaria assinada por Tomie Ohtake.   

   
Fiquei estarrecido não com essa notícia em si, mas com o que esse incêndio expôs, que foi a incompetência na gestão de bens culturais. Isso, se tratando de um país que tem como pretensão, a longo prazo, se tornar uma potência econômica mundial e consequentemente um pais valorizado culturalmente pela sua formação que remete a miscigenação cultural de diversos povos do mundo. Lembremos alguns dados que não são amplamente divulgados pela grande mídia nem por órgãos oficiais de fomento a cultura.


O Brasil tem mais museus que salas de cinema (2.098) e teatros (1.229), conforme dados divulgado este ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Vinte e um por cento dos municípios brasileiros – 1.172 de um total de 5.564 – têm pelo menos um museu.
  
Apesar do número expressivo, a maioria dos museus ainda está concentrada nas capitais e nas regiões Sudeste e Sul. As três metrópoles mais populosas também abrigam os maiores acervos: São Paulo, com 132 museus, Rio de Janeiro, com 124, e Salvador, com 71. Palmas, no Tocantins, com apenas três, é a capital com menor número de museus.


O estado de São Paulo, com 517 instituições, é a unidade da federação com maior quantidade de museus, ficando em segundo lugar o Rio Grande do Sul, com 397, e em terceiro, Minas Gerais, com 319 museus. Os gaúchos, no entanto, têm a melhor relação entre o número de museus e a população, com uma instituição para cada 26.657 habitantes. A pior é a do Maranhão, onde para cada 266.042 habitantes há apenas um museu.


Na distribuição regional, o Sudeste (1.151) e o Sul (878) detêm o maior número de museus. No Nordeste, existem 632, no Centro-Oeste, 218 e, no Norte, 146. Em nível regional, o Nordeste registra o maior número de habitantes por museu: 100.160. Quanto aos acervos, o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro é o conta com a maior quantidade de bens culturais preservados: 15 milhões de peças.


Segundo um estudo do Ibram, 67,5% dos museus brasileiros são dedicados à história. 53,4% às artes visuais e 48,2% à imagem e som. Pelas projeções do cadastro do Ibram, em 2009, os museus brasileiros foram visitados por cerca de 82 milhões de pessoas. A maioria das instituições (67,2%) é pública, e 79,7% delas não cobram ingresso, quer sejam públicas ou privadas. De acordo com o estudo, os museus brasileiros empregam atualmente 26.762 pessoas. 


Um problema corriqueiro atinge grande parte dos museus e instituições culturais do Brasil: o roubo e o furto de documentos e objetos históricos. Quadros, fotografias e imagens de santos desapareceram em Minas Gerais, Pernambuco, São Paulo, Paraná. Um dos roubos mais espantosos foi de quadros de Picasso, Monet e Salvador Dali no Museu Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, há sete anos. 


O caso mais recente também aconteceu no Rio, no Museu da República: o furto da caneta de ouro cravejada de brilhantes que pertenceu ao presidente Afonso Pena. “Devia já ter estudado, devia ter visto que não existem câmeras de segurança”, afirma a museóloga Magaly Cabral.Magaly mandou fechar o andar onde o ladrão agiu e diz que só o reabrirá se conseguir mais guardas. “Eu já fui avisada que vou poder aumentar o contrato em 25%. Vou ganhar mais 7 guardetes, e isso ajuda”, afirma. 


Mais guardas apenas não resolvem. Museus como o da República também precisam de câmeras de segurança, mas enfrentam o mesmo problema: a falta de verbas. Somente 16% dos museus brasileiros possuem circuito interno de vigilância, informa o Ibram, que reconhece a necessidade de mais investimentos para proteger o patrimônio.“O Ibram estabeleceu um programa interno, que vai ser lançado em maio, para alertar os gestores sobre as questões mais importantes no campo dos riscos e na questão da segurança”, afirma Cícero de Almeida. O Ministério da Cultura informou que investiu em seus principais museus, mais de R$ 20 milhões em 2012, valor 15% maior que no ano anterior. (Fonte dos dados e estatísticas: IBRAHM)




Mesmo com todas as transformações culturais que ocorreram no Brasil os museus ainda continuam com a visão medieval e romantizada de que são ilhas da cultura. As quais só têm acesso uma aristocracia cultural metida a vanguardista, composta por meia dúzia de intelectuais que acham que tem a prerrogativa de deuses ao instituir o que é ou não é arte, mantendo o grande público desinformado e ignorante quanto ao que se passa nas alcovas e nas salas fechadas dos gestores culturais.

Os museus na nossa época, tentam sobreviver a cada dia a banalização da reprodução em série das grandes obras de arte, pois, graças a não compreensão do que é arte, do apreciar a arte e da banalização do fazer artístico, essas obras ficaram relegadas a grandes enfeites em casas de indivíduos "cults e antenados". A internet contribui também para essa "crise física" dos museus, já que da minha casa eu faço uma visão panorâmica dos museus sem ter a incrível experiencia estética de entender o que a obra de arte possa revelar para o indivíduo que vê, que a percebe, que interage com aquilo que está posto fisicamente e subjetivamente.


Em tempos obscuros um texto escrito pelo filósofo alemão Walter Benjamin (A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica) cada vez mais mostra sua importância na época da espetacularização e do absurdo cotidiano. As obras de arte ao saírem das igrejas e das bibliotecas medievais perdem seu poder de culto em detrimento ao seu poder de exibição. 

Na ânsia de serem exibidas para o maior número de pessoas, começaram a ser exaustivamente copiadas, falsificadas e reproduzidas em série. Perderam assim sua essência, o fazer artístico sendo relegado a uma mera técnica e as obras sendo transformadas em mais um objeto comum de comércio. Nesse contexto fica a pergunta: Até quando poderemos ver obras artísticas em toda a sua potencialidade, já que da mesma forma que a arte agoniza, os museus serão cada vez mais depósitos de coisas esquecidas do passado?

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