Sobre descaso e lágrimas: documentos, lixo e memória.

Prof. Pablo Michel Magalhães
Redação d'O Historiante


Gosto da minha profissão. Adoro me debruçar sobre fontes e imaginar ações, eventos, momentos, histórias, possibilidades. Sinto-me desafiado a cada momento, e é isso que me movimenta: a constante superação, o constante aprender, fugindo do lugar comum e da monotonia. Acima de tudo, me satisfaz a ideia de que estou construindo conhecimento a cada nova pesquisa, e que isso, ainda que tão pequeno e tão simples, vai ajudar várias outras pessoas a encontrar e trilhar seus próprios caminhos, seja lá quais forem.

Talvez por isso me entristeça com o descaso ao qual são relegados vários dos acervos documentais que conheço, bem como, em alguns casos, a total inexistência inclusive de locais preparados para receber os vários documentos memoriais e históricos para conservação. De certo, não há como negar que no país, o mínimo de atenção é dispensada à educação, e a História entra nesse bojo, infelizmente; do mesmo modo, não posso negar, também, que esforços são feitos em diversos lugares, no intuito de promover a conservação dos materiais documentais e difundir seu conteúdo para toda a comunidade. Os grandes centros brasileiros, nesse ponto de vista, são mais privilegiados neste aspecto.


Mas, o que falar do interior? Historiador que sou, formado em Petrolina, semi-árido pernambucano, preocupo-me em especial com a atenção que estamos dando a história da cidade e da região.

Há alguns anos atrás, pesquisando materiais para meu trabalho monográfico, pude entrar em contato com o então arquivo da prefeitura municipal. Imaginando encontrar alguma "bagunça" (bom, em se tratando de município, precisamos ir preparados para tudo) que dificultasse a busca, fui, acompanhado de um amigo e de uma professora da UPE até a prefeitura conhecer o local. Mas, confesso que isso superou minhas expectativas: montanhas de papel, torres de livros em avançado estado de decomposição, poeira, sujeira, fezes de rato, e um cubículo mais apertado que ônibus circular às 18hs, horário de pico na cidade e em várias outras cidades do país. 

Coube a minha professora à época, que me acompanhava, enviar um ofício à prefeitura, informando o caso e solicitando alguma providência.

Poucos meses depois, com esperança de que algo pudesse ter sido feito, retornamos ao arquivo (morto, literalmente) para desenvolver a pesquisa. Recepcionados por outro funcionário, vimos um arquivo muito distinto do anterior: prateleiras organizadas e limpas, dados catalogados em computador, documentos organizados por assunto; muito melhor, sim, mas, com um detalhe: tudo que estava ali datava de, no máximo, 2000 ao ano atual (2010). E o restante? Pasmos ficamos com a resposta:

"Ah, o resto era velho e sujo. Eles jogaram ali no depósito".

Hum... Tudo estava "velho" e "sujo"? Que ótimo.

Buscamos o endereço e, mesmo recebendo o alerta do funcionário, de que tudo estaria "revirado", fomos ao local, na rua Aristarco Lopes.

Abro um parêntese sobre essa rua. 

Das mais antigas da cidade, há tempos atrás, era conhecida como "rua do grude": ribeirinha que é, Petrolina fazia parte da rota histórica de tropeiros, que ligava Piauí, Maranhão e demais estados ao norte de Pernambuco, à Bahia e ao sul do país. Sendo passagem para a cidade de Juazeiro/BA, proeminente centro urbano que controlava a navegação no Rio São Francisco desta região, Petrolina recebia vários comerciantes e viajantes, que vinham com seus produtos para vender no porto juazeirense. Como a barca de passagem tinha hora marcada para ir e vir (e estamos falando aqui de tempos anteriores à construção da ponte Presidente Dutra, que passou a ligar as cidades, a partir da década de 1950), muitos faziam parada em Petrolina, desembarcando suas cargas, com porcos, bois, bodes, galinhas, e, consequentemente, fazendo muita "sujeira" no local. Daí o "grude" da rua.

Pois bem, é engraçado que, em uma rua com tal valor memorial para a formação da cidade, documentos "velhos" e "sujos" tenham sido "jogados" por quem quer que seja.

Fechamos o parêntese, voltamos à visita.

Não havia ninguém que nos recebesse no tal depósito. Tivemos de ir ao lado, em um espaço do poder municipal (a memória me falha agora, mas estou quase certo de que se tratava da Guarda Municipal) perguntar de que maneira conseguíamos entrar no casebre semi-destruído a que chamavam de depósito. Alguém encontrou uma chave, abriu a porta, e disse que o fedor era grande, dificilmente encontraríamos algo, e que lá só havia "lixo".

Sim, o fedor era grande; sim, a sensação era de que estávamos em um lixão. Não pude deixar de registrar aquilo que encontramos...


Em uma porta anexa, encontramos esse espaço:


O ângulo da fotografia é intencional: a montanha de "lixo" ao fundo por trás da porta com o letreiro ARQUIVO representa, simbolicamente, a memória entregue às traças.


Além de diversos fichários, com atas, ofícios, ordens municipais, etc., havia alguns rolos de fita (áudio? vídeo?) sobre caixas de arquivo.



Bom, paro por aqui, porque as outras imagens estão ainda mais nauseantes.

Após as fotos, e depois de diversas tentativas de acionar o poder público, montamos um banner e apresentamos o caso na semana acadêmica da Universidade de Pernambuco. Diante do choque de muitos dos presentes, buscamos, de alguma forma, mobilizar os colegas para que também cobrassem atitudes dos dirigentes municipais sobre o assunto.

Há algum tempo atrás, passando pela Aristarco Lopes, vi uma placa municipal diante do depósito. Fiquei animado com a possibilidade: poderia ser a revitalização do prédio, para abrigar um acervo documental? Ao aproximar-me do letreiro, a realidade me deu um tapa na cara. O imóvel seria leiloado/vendido. E o que está lá dentro? Bom, há uma enorme possibilidade (ENORME MESMO) de tudo isso ter, simplesmente, desaparecido. Puft, e 50, 60, 70, 80 anos de documentos somem no ar.

Hoje, não sei que fim levou esse material. Confesso que, distante que estou, não tenho andado mais pela rua, pra ver o que aconteceu com o "depósito". Com a especulação imobiliária devorando a orla de Petrolina, imagino que o lugar esteja em vias de se transformar em um edifício residencial de 40 andares.

Lembro que, naquele dia, ao sair do "lixão" em que me encontrava, deparei-me com uma mensagem das mais melancólicas possíveis:


Entre uma porta e outra, contendo todos aqueles documentos revirados, pensei: "Já não sei em quê acreditar".
_________________________________________

P.S.: Não posso, contudo, deixar de registrar elogios a um dos acervos que visitei, e que mantém, com muita qualidade e empenho, uma série de documentos, muito bem conservados: o arquivo Maria Franca Pires, na UNEB de Juazeiro, sob a batuta da professora Odomaria e seus alunos.

P.S.2: Outro elogio: à Emissora Rural de Petrolina. O acervo que eles mantém por lá é vasto e riquíssimo.

Comentários

  1. É isso aí Velho Pablo, mais uma vez, com um texto excelente denunciastes o estado que se encontra muito de nossos arquivos. De fato a memória, a História não fazem parte dos interesses primazes no que concerne politicas publicas, o que sobras entao são ações individuais ou de grupos, geralmente acadêmicos. Feira de Santana, com toda dificuldade, estamos conseguindo organizar e de certa forma manter alguns arquivos. Na UEFS temos: Casa do Sertão, com seu acervo digitalizado de Jornais, dentre outros impressos; Cedoc, com o acervo da justiça, tanto criminal como Cível; O Labelu, com a preocupação com memoria da esquerda. Para além da universidade, o Arquivo Publico de Feira de Santana e da Camara de Vereadores; a sede do Folha do Norte; o trabalho da Fundação Senhor dos Passos. salvo, o arquivos particulares. Talvez a isso seja responsável, pelos inúmeros trabalhos - monografias, dissertações e teses, que nos ultimos 10 anos são produzidos, criando assim uma Historiografia Feirense. Espero que Petrolina encontre essa trajetoria e para isso a UPE terá papel significativo.

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