Livro - Eichmann em Jerusalem: um relato sobre a banalidade do mal.




Prof. André Araújo
Redação d'O Historiante


Uma filósofa alemã, judia, de família rica vivendo em Berlim em plena 2ª Guerra Mundial. Estes fatores reunidos poderiam ser considerados suficientes para se prever o destino da moça: fuzilamento ou câmaras de gás. Só que não! A filósofa Hannah Arendt, tendo vivido as incertezas de um futuro que parecia não ter muitos horizontes, sobreviveu. O medo da morte no contexto da expansão do nazismo e do assassinato de judeus foi uma página virada na vida da filósofa. Pelo menos até ela ter notícia que em 1960 Adolf Eichmann, acusado de ser um dos arquitetos da “solução final”, seria confrontado com o povo judeu em um tribunal.
Hannah Arendt conseguiu fugir do genocídio nazista e se refugiou nos Estados Unidos. Foi professora universitária em Nova York e, em 1960, já era uma filósofa reconhecida internacionalmente pelas obras “A Condição Humana” e “As Origens do Totalitarismo”. Quando soube do julgamento de Eichmann, ela se ofereceu à revista The New Yorker para cobrir o julgamento, sendo sua correspondente na corte instalada em Jerusalém. Imaginava-se que, àquela altura, tendo conhecido as arbitrariedades do regime nazista, Hannah Arendt certamente, enquanto judia, tendo escapado dos campos de concentração e não tendo virado estatística, acusaria e engrossaria o coro pela execução de Eichmann. Mas, contrariando o senso comum, e demonstrando sua preocupação pelo pensamento livre das paixões, a filósofa buscou olhar para o julgamento por um ponto de vista distanciado. Enfrentando os anseios dos judeus, amigos e colegas de profissão, ela questionou a legitimidade do julgamento e centrou-se em algo que seria fulcral daquele momento em diante: a banalidade do mal.

Ao voltar de Jerusalém, escreveu artigos sobre o julgamento para a The New Yorker e em seguida o livro “Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal”. Foi acusada de ser uma pensadora insensível, sensacionalista e, principalmente, por ter se relacionado com o filósofo Martin Heidegger (filósofo que havia se inscrito no Partido Nazista, quando Hitler chegou ao poder), foi acusada de condescendência com o nazismo.

Muito longe de defender o nazismo, Hannah Arendt tentava descortiná-lo, porém, criou um certo constrangimento à comunidade judaica, pois ela jogava luzes sobre a penumbra que havia se instalado sobre a questão da cooperação do povo judeu com o próprio nazismo. No livro, ela aponta que, além da colaboração ativa dos judeus alemães, para evitar serem eles massacrados, havia também uma passividade de setores das elites judaicas que negociavam uma “redução de danos”. Ao passo que aprofunda na investigação das personagens que participaram ativamente e passivamente da expansão do nazismo e da movimentação dos setores judeus, ela observa que havia em determinados momentos uma congregação de interesses do movimento sionista e dos alemães não-judeus, no sentido de dar uma solução para a questão judaica. Questão que o Eichmann chamava de “por solo sob os pés dos judeus”.

Arendt mexeu na ferida quando questionou a legitimidade de um julgamento que teria iniciado a partir do sequestro de Eichmann na Argentina, onde vivia em um subúrbio da capital Buenos Aires. O livro inicia pela descrição minuciosa da Corte que julgaria o nazista que conseguiu fugir da Alemanha após o fim do III Reich alemão (Eichmann conseguiu fugir da Alemanha com ajuda do Vaticano, não por ser nazista, mas por ser um “bom católico). Hannah Arendt questiona o principio da imparcialidade que tentava ser criado na Corte, a partir das mais altas tecnologias utilizadas na época, bem como pelo “direito a defesa” que tentava ser criado naquele tribunal, mas que já se sabia que seria sem efeito. Ela não considerava Eichmann inocente, mas incomodou a comunidade judaica, por dizer que o principio da justiça, tanto do ponto de vista jurídico, político, filosófico ou moral, não se sustentava como fora concebido naquele julgamento. Não era um sujeito que estava sendo julgado naquele tribunal, mas um regime que já fora condenado muito antes, seja pela investida dos Aliados, seja pelo tribunal de Nuremberg.

O que estava em questão era o anti-semitismo e sua longevidade histórica. A idéia do julgamento de Eichmann pretendia expor um monstro anti-semita (para a tristeza do primeiro-ministro Ben Gurion , que mandou sequestrar Eichmann na Argentina, o acusado nunca assumiu ser anti-semita, pelo contrário, afirmava que trabalhou sempre com os judeus no intuito de auxiliá-los com a “questão judaica”). O primeiro ministro do Estado de Israel expos ao mundo a inclemência e violência do regime de Hitler. Seu intuito era evidenciar que qualquer reação em relação à criação do Estado de Israel seria considerada anti-semita. Afinal, depois da criação do Estado de Israel em 1948, uma reação palestina começou a chamar a atenção de outras nações, que, mesmo vendo a absurda investida israelense, mantiveram-se silenciosas.

O livro investiga como ocorreu a mudança de atitude dos alemães em relação à causa judaica: da expulsão para a concentração e, por fim, a solução final, o assassinato. Tendo como fio condutor a participação de Eichmann que, em vez de ser um dos principais arquitetos da destruição, por seu trabalho de enviar judeus ao campos de concentração, era mais um burocrata obediente às ordens de seus superiores. Um sujeito incapaz de refletir sobre as suas atitudes e renegando a sua consciência, em nome de suas promoções junto à burocracia nazista. Na narrativa de uma serie de fatos, amplamente documentados, expondo as questões técnicas, Hannah Arendt, em um trabalho ao mesmo tempo jornalístico e filosófico, coloca em questão os perigos que a centralização do poder e a supressão das instituições democráticas conseguem produzir numa maquina governamental inclemente, incapaz de dialogar com as individualidades dos sujeitos. Uma maquina burocrática capaz de produzir, através do silêncio daqueles que não conseguem reagir, uma sociedade indiferente, que coloca a sobrevivência mais tranquila ou a obtenção de vantagens individuais em primeiro lugar, em detrimento das liberdades e garantias de setores subalternizados.

Hannah Arendt critica a noção de que o mal só pode ser perverso a partir da dicotomia bem e mal. O mal é o mal. O mal não é nem radical, nem menos deletério, ele é simplesmente só o mal. As ideologias agregadas a ele só servem não para descortiná-lo, mas para laurear aqueles que não se enquadram na tipologia do “mal-perverso”. Pode-se ser plenamente perverso obedecendo as leis. Eichmann foi um funcionário padrão. Obediente, cumpridor de seus deveres profissionais. Tentou “amenizar” o sofrimento judeu auxiliando-os com a sua expressão recorrente no livro: “por solo sob os pés dos judeus”. Mas, a “misericórdia” demonstrada por ele somente auxiliava a reproduzir o mal em sua faceta mais sorrateira. O mal banal. Onde as pessoas, por não se enquadrarem na tipologia do “mal-perverso”, de tipo maniqueísta, não se enquadram nessa categoria e simplesmente seguem suas vidas. Indiferentes com o outro.

Este ano foi lançado o filme “Hannah Arendt” que aborda a viagem da filósofa para cobrir o julgamento de Eichamnn, bem como as dificuldades que a mesma enfrentou na época para escrever o livro. Um ponto alto do filme é o uso de imagens originais do julgamento de Eichmann. O filme não apela para imagens de assassinatos dos judeus (no livro tem descrições feitas por Eichmann que são de nos deixar horrorizados. Saber que o ser humano consegue encarar e cometer atos perversos com tamanha banalidade). O filme evidencia também a coragem da filósofa e seu apego pelo pensamento livre. Vale a pena conferir o filme e o livro!

Trailer do filme:



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