Notas sobre questões culturais e sociedade de consumo.




Prof. Lucas Adriel S. de Almeida
Redação d'O Historiante.


Era apenas o início de uma noite comum de verão e as pessoas, sentadas à porta de suas casas, aproveitavam para sentir a brisa que cortava a rua. Ao mesmo passo, observavam atentamente seus filhos que brincavam com uma bola na rua, que, àquela hora, não tinha movimento de carros. As crianças procuravam sempre algo móvel para funcionar como traves, já que um automóvel poderia chegar naquela rua a qualquer momento exigindo, ao som imponente de suas buzinas e motor, a passagem que era sua de direito. Dessa forma, as crianças usavam as sandálias ou apenas alguma marcação no giz ou telha no chão, como traves para sinalizar os gols. Alguns pais ouviam no moderno rádio de pilha o narrador empolgado de alguma emissora AM transmitir mais um jogo de futebol.


Esta descrição, aparentemente distante e recuada no tempo, compreende, contraditoriamente uma realidade muito próxima de muitos dos que estão lendo este texto, que, se não viveram este tipo de cena diretamente, já viram muitos de seus pais darem testemunhos de fatos muito parecidos com a narrativa acima. Certo dia, uma pessoa amiga veio, chateada, queixar-se comigo sobre seu aparelho de TV que havia quebrado. Apesar de sua aparente frustração com o ocorrido, esta pessoa afirmava que "não podia reclamar" - apesar de já o estar fazendo -  afinal, o aparelho de TV em questão tinha a idade de um de seus filhos que já havia ultrapassado a adolescência. Trouxe estas questões para este texto, para que possamos nos dar conta dos caminhos que vem tomando nossa sociedade, onde outrora se era feliz sem tanto consumo.



Para além dos nossos atuais produtos, norteados pela ideia de uma obsolescência programada, a questão que quero discutir neste texto extrapola a ideia da "vida útil" dos artefatos que compramos hoje em dia. Prefiro discutir a proposta capitalista de orientarmos o nosso bem estar pela necessidade do consumo. A minha provocação é para que busquemos repensar os nossos valores que cortam de forma transversal, não só a questão ambiental - o que já é deveras importante, visto que a produção desenfreada dos mais diversos produtos requer matéria prima de forma insustentável e produz uma quantidade de lixo exorbitante -  mas que passam também por uma profunda reflexão social. O consumo exagerado de produtos com vida útil cada vez mais curta insere também um debate sobre o papel que as questões culturais tem neste meio.




Num mundo que se reinventa a todo em função da necessidade do consumo, agradando ao capital, percebemos diversos retratos sociais que remetem a não incorporação de diversas expressões culturais que acabam por ser marginalizadas e sendo vistos como atrasados e indesejáveis para quase todos os membros desta mesma sociedade, merecendo espaço apenas nas lembranças de muitos de nós ou na vida de pessoas -  como o do dono do aparelho de TV - que resistem às investidas de marketing das empresas do setor, para que abandonem algo que tem ou são. Nesta forma de enxergar o mundo, há pouco ou nenhum espaço para as formas de expressão que não se enquadram nesta sociedade de consumo ou que foram feitas para durar.



Me ponho a pensar o papel que tem os espaços de identidade indígena, da cultura regional e local, bem como os aspectos que debatem esta identidade nos dias atuais, competindo lado a lado com a enxurrada de modelos e parâmetros culturais mercadológicos, que chegam até nós dentro desta proposta consumista e que buscam igualar a todos para vender também produtos culturais. A diversidade é seriamente atacada neste contexto, pois a cultura - assim como todos os bens de uma sociedade de consumo - acabam por seguir uma certa lógica de mercado para existir nesta situação, assim como outro produto qualquer.

Não quero aqui delimitar conclusões para este debate e nem de longe pretendo definir o que seria ou não cultura, quero apenas problematizar o fato de como se insere a produção e o consumo cultural numa sociedade orientada pela lógica capitalista, onde a satisfação é fundamentada em enquadrar-se em certos ditames culturais, com o intuito maior da venda de produtos. Busco ainda instigar a reflexão de como esta lógica de uma sociedade de consumo se insere dentro da questão educacional e de como a produção cultural, que não foge a esta regra, é relegada a um "segundo plano" dentro de todo este contexto social que visa o lucro.

E como diz uma canção da banda Engenheiros do Hawaií:

" Vender, comprar, vendar os olhos
Jogar a rede... contra a parede
Querem te deixar com sede
Não querer te deixar pensar"

Música citada: "3ª do plural" do disco Surfando Karmas & DNA (2002)


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