Estou em greve!!!

Prof.ª Aline Martins
Redação d'O Historiante


Essa é, na verdade, uma carta desabafo aos alunos, pais, colegas e sociedade em geral com o objetivo de esclarecer os motivos dos professores do Município, do Estado e da FAETEC do Rio de Janeiro, estarem em greve, e, em especial, os meus motivos para estar em greve.

Sou professora da Rede Estadual de Educação do Rio de Janeiro há pouco mais de um ano. Esse foi um post que fiz em minha página pessoal no facebook, assim que entrei no Estado no ano passado:

"Convocada para o Estado. FELIZ!!! Mesmo completamente ciente das dificuldades que irei encontrar...FELIZ!
Infelizmente, não posso dizer que é a realização de um sonho, ou que, nas atuais condições de trabalho, seja minha vontade permanecer no Estado eternamente. Porém, enquanto lá estiver, farei o melhor que puder e lutarei por uma educação de qualidade, acreditando que a situação atual mude um dia, que a profissão seja valorizada e que tenhamos uma boa estrutura e qualidade de ensino, que permanecer no Estado possa ser uma escolha e não uma necessidade momentânea... Utopia? Talvez, mas a educação foi o diferencial em minha vida e eu continuarei acreditando na sua força transformadora."



Após decorrido pouco mais de um ano... Estou em greve!


Estou em greve, pois apesar de tudo que vejo acontecer ainda acredito e muito na Educação, mais do que nunca essas palavras se tornaram muito verdadeiras para mim.

Estou em greve, pois como professora, historiadora e cidadã, não podia ignorar os gritos das ruas, que, entre outras coisas, bradaram por uma educação de qualidade.

Estou em greve, pois não aceito que meus colegas de profissão apanhem da polícia por lutar por uma educação de qualidade para todos. http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2013/08/522985.shtml

Estou em greve, pois acredito no potencial de meus alunos e não abro mão do direito que eles possuem à uma educação "padrão FIFA".

Diversas reportagens e artigos vem tratando atualmente da questão: geração "Nem, nem", que nem quer estudar, nem quer trabalhar. http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/economia/nacional/noticia/2013/08/11/geracao-nem-nem-cresce-no-brasil-e-no-recife--93157.php

Nossa população está envelhecendo e nossa juventude, o futuro da Nação, não tem objetivos, e isso é muito triste. É perverso, é maquiavélico.

É frustrante para um professor fazer aquela clássica pergunta aos alunos: O que vocês querem? qual profissão querem seguir? E ouvir como resposta, de cada vez mais alunos: "Não sei, ainda não pensei nisso"; "Sei lá, quando chegar a hora a gente vê."; a top "quero ser jogador de futebol", ou a mais triste de todas: "Quero ser traficante".

Mas como ter objetivo, se durante anos a educação vem sendo relegada às moscas?

Professores são obrigados a aprovar alunos que mal sabem ler e escrever, alunos são depositados em uma sala de aula quente no verão e com um grande cachoeira em dias de chuva. Professores que tentam fazer uma aula diferenciada e ir além do cuspe e giz, tem que disputar projetores e outros materiais de apoio. Os alunos sabendo que serão aprovados de uma maneira ou de outra, ficam cada vez mais desinteressados, porém são obrigados a frequentar as aulas. A escola para eles é uma prisão e o professor é o carrasco. Alunos e professores viram inimigos. Planos de metas colocam professores contra professores e nossa classe vai seguindo desunida...

Muitos são os problemas e eu poderia escrever páginas e páginas deles. Destacarei abaixo os que necessitam de solução mais urgente e que foram citados em uma carta de apoio divulgada pelos professores da Faculdade de Educação da UFRJ:

1. Ausência de um plano de cargos e salários que garanta a dignidade de vida do professor e a qualidade de sua atuação docente. O que temos hoje é uma politica de sistemático mascaramento das condições salariais por parte das secretarias, através de bonificação e certificação que ferem a isonomia salarial.

2. Turmas superlotadas, em descompasso com qualquer proposta pedagógica responsável.

3. Assédio moral e políticas autoritárias na distribuição dos professores nas escolas.

4. Tratamento violento (e mesmo truculento) aos profissionais da educação e estudantes em luta.

5. Sobrecarga do trabalho dos diretores, reduzidos a gestores, presos a funções burocrático-administrativas, sem suporte por parte das secretarias.

6. Repasse de verba pública para o setor privado, através de convênios – “compra” de pacotes (assessorias e materiais didáticos) superpostos e conflitantes com produções pedagógicas das próprias secretarias e do governo federal, incluindo as avaliações.

7. Deturpação do caráter público da escola através de parcerias com empresas privadas, que reduzem o seu caráter formativo plural à função exclusiva de produção de mão-de-obra.

8. Politica de avaliação externa desconectada das propostas curriculares oficiais e da realidade escolar.

9. Maquiagem leviana dos dados de escolaridade, evasão, abandono e repetência, incluindo estratégias de manejo de alunos, com o objetivo de produzir indicadores educacionais satisfatórios.


10. Professores induzidos a atuar fora de sua área de formação e faixa etária.


11. Descaracterização da natureza pedagógica da Educação Infantil, atrelando os seus processos de escolarização já a uma lógica tecnicista e produtivista.







Conclamo aos pais, alunos, colegas que ainda não aderiram e sociedade que juntem-se à nós. Nos apoiem, busquem se informar sobre o que realmente vem acontecendo com a educação pública, não só no Rio de Janeiro, mas em todo o país. Essa não é uma luta apenas de professores, e tão pouco, apenas por salários. É antes de tudo a luta de toda uma sociedade que se preocupa com seu futuro e se pretende digna.

"Todas as marchas são lindas, toda a luta de um povo é legítima, mas nenhuma luta é mais bonita do que a do professor, porque ele carrega em suas mãos, esse compromisso, essa vontade amorosa de querer mudar o mundo." (Nelma França)

Veja mais:

http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2013/08/14/brasil-tera-falta-de-professores-da-educacao-basica-alerta-secretario

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