Em Petrolina... Repressão fardada? Sobre o Vale que acordou e um tal de Cauby.

Membros do Vale Acordou, na Prefeitura de Petrolina (Imagem: carlosbritto.com)


Prof. Pablo Michel Magalhães
Redação d'O Historiante


Bê-a-bá do liberalismo: o Estado de direito, legítimo, possui o poder de uso da coação física. Sobre coação física entenda-se o direito de, por meio da força, fazer valer os interesses do Estado sobre aqueles que são vistos como "subversivos" à ordem natural. Agora, um pouco de weberianismo clássico: ainda que, em uma dominação legitimada por estatutos (ou, no vernáculo popularesco, constituição, carta magna, etc e tal), aquele que exerce o cargo administrativo seja identificado como "servidor público", mesmo assim, este exerce dominação de fato sobre os que o instituíram no trabalho (ou seja, os votantes comuns de cada dia, como seu João e dona Maria). Quem vive dentro desse sistema vai achar feio, abominável, desprezível, tudo o que não refletir ele mesmo. Em palavras claras e diretas, Narciso acha feio tudo aquilo que não é espelho!


Venho observando atentamente o desenrolar das manifestações em todo o país (não, elas não sumiram. A grande mídia é que esqueceu delas), e a cada declaração que leio ou ouço de representantes do poder público, mais vejo que o velho Weber ainda continua atual. E bota atual nisso! Não preciso ir longe pra ilustrar essa minha conclusão. Na minha boa Petrolina/PE, integrantes do movimento O Vale Acordou! foram sumariamente expulsos da Prefeitura Municipal, onde realizavam protesto e acampavam há bons 16 dias, por um destacamento de guardas municipais. Diante da violência e truculência da ação dos fardados, relatos de uso de spray de pimenta, cassetetes e armas de choque foram divulgados pela mídia local.

Coação física, meus caros... A velha arma do Estado.

A legenda do cartaz explica tudo. (Imagem: carlosbritto.com)


Porém, o que me fez dar um riso triste, após esse famigerado episódio, foi a declaração de um tal Cauby ("Conceição, eu me lembro muito bem!"), claramente com o intuito de desmerecer os manifestantes, aos olhos dele, "meninos [de conduta] hostil,barata,muda" (sem espaço entre as vírgulas, que é pra mostrar que é um cabra da peste mesmo [risos]). Não sei o que é mais latente nesse tipo de discurso: o rabo preso diante de um cargo comissionado/indicado/seja lá o que for, ou a total alienação ideológica e política. E isso só me faz lembrar do velho Weber: a coação pode ser exercida sob outras formas, inclusive a psicológica! Ou seja, os dirigentes não precisam (apenas) espancar a população, eles podem utilizar as mídias para exercer uma coação mental.

Obviamente, esse indivíduo sequer sabe diferenciar direita de esquerda no jogo político da própria cidade, imagine então saber o que raios é coação física, muito menos quem é Weber (o da Fórmula 1? Não, Cauby, não...). Quem merece a adjetivação hostil? Pessoas que se levantam contra os de cima, ou uma dúzia de aspirantes a samangos armados e truculentos? Ah, o paradoxo da relativização: escrever um texto meia boca, onde aqueles que reivindicam legitimamente seus direitos se transformam em pessoas que "estão ludibriando a sociedade petrolinense ,passando-se por vítimas (!)".

Literalmente, transforma-se o lobo em cordeiro, e o rebanho inteiro em matilha. Meus parabéns! (e aí, caro leitor, imagine a minha cara de desdém ao dizer isso). E acho extremamente irônica essa afirmação: Eles estão ludibriando a sociedade! Nossa, que horror, esses vândalos, que andam de ônibus Circular lotado, e precisam se segurar firmemente pra que os solavancos provocados pelos buracos nas ruas não os derrubem! Um ultraje isso! (Faça-me o favor, Cauby).


E eis que surge ela: A CERCA! (foto que circula pelo facebook)

A opereta clássica ribombou pelos ares petrolinenses, queridos e queridas: diante das manifestações, dos gritos, das reivindicações, dos protestos, da ocupação, a mão do Estado (e estou falando do aparelho de dominação política municipal, não do Estado de Pernambuco) teve de agir, e sentou a púa em quem estava lá, acampado, na prefeitura; e, num esforço para desqualificar os agentes das manifestações, utilizou-se da mídia para veicular meia dúzia de impropérios anedóticos. "Caubys" e "Bananas" da vida nada mais são que simples bobos da corte nessa sinfonia horrenda.

Acredito, sim, que devem haver debates em torno das ações do grupo O Vale Acordou!, assim como em todo e qualquer grupo que preze pela coletividade. Mas isso, nem de longe, legitima senhor prefeito e sua guarda HOSTIL (sim, aqui ficou bem empregado, não acham?) promover semelhante arrastão nos manifestantes acampados na prefeitura! Uma atitude amplamente autoritária e desrespeitosa!

Uma última coisa: ao se dirigir a um órgão de imprensa, oh xará do Peixoto, releia o que foi escrito, e, por favor, utilize com um mínimo de decência as vírgulas. Dica de professor.


Reafirmo minha opinião convicta: O Vale Acordou! me representa, e a luta continua legítima. Só um "banana" pra não entender isso...

_____________________
P.S.: Só pra refrescar a memória, foi o mesmo Lóssio, que hoje reprime, quem colocou uma faixa cretina, lá no início das manifestações, declarando "apoio" ao movimento. E que apoio!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Livro - "A vida Verdadeira de Domingos Xavier", de José Luandino Vieira

Educação doméstica X Educação escolar no Brasil: desafios, conflitos e perspectivas.

" Todos iguais... uns mais iguais que os outros"