Pare, pense...E aja!

Prof.ª Aline Martins
Redação d'O Historiante


 ...E aja.


Acredito que muitos que não conhecem o assunto mais profundamente, já se questionaram sobre o porque da existência do Estado.Vale recordar aquela aulinha básica de Ciência Política, de forma bem resumida é claro, sobre as teorias do contrato social (que muitos não escolheram, mas a qual todos estamos submetidos) difundidas por Hobbes, Locke e Rousseau. Estes senhores, em suas explanações, nos apontam que as pessoas abrem mão de certos direitos e liberdades em nome de uma racionalização e ordem na vida e relações sociais, originando a estrutura que denominamos como Estado (poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e demais Instituições que regulamentam nossa vida cotidiana). Para isso, atribuem e reconhecem a autoridade a governantes, que têm por missão conduzir a ordem social por meio de regras que assegurem a paz interna, a defesa comum e atendam as necessidades e liberdades individuais.



Esse consentimento de centralizar no Poder Público a administração da vida Pública também é baseado em confiança. Portanto, ao se delegar poderes a alguns indivíduos (nossos representantes), estes devem retribuir assegurando à população condições para a manutenção da ordem social, objetivo principal da criação do Estado. Quando observamos inúmeras situações de abuso do poder, corrupção, descaso com a saúde, educação, transporte, assistência, impunidade, fica evidente a quebra do Contrato Social.




Creio que não erro ao afirmar que, mesmo esperando anos para ver algo tão grandioso acontecer em nosso País, anos esperando nos livrar de nossos grilhões, ficamos todos meio atordoados com a dimensão que tomaram as manifestações ocorridas nas últimas semanas, e estamos ainda procurando compreender e explicar o que está acontecendo de fato.

Alguns insistem em afirmar que nós, brasileiros, acordamos, mas a verdade é que muitos já estavam acordados há algum tempo, realizando manifestações as mais diversificadas: movimento do passe livre, marcha das vadias, manifestações contra remoção de moradores em várias regiões, passeatas de professores, bombeiros, funcionários da sáude, remoção da aldeia maracanã, desocupação de Pinheirinhos,
manifestação contra a Usina de Belo Monte, manifestação pelos direitos dos homossexuais, e tantas outras mais...

Os 0,20 centavos foram apenas a mola propulsora de questões que vão muito além. Entretanto, se fosse apenas por isso, seria uma reivindicação mais do que legítima, afinal, para um povo que conta moedas para sobreviver, qualquer 0,20 centavos faz falta sim. Muitas vezes, é a diferença, por exemplo, entre poder comer um pão ou não no café da manhã, antes de ir para o trabalho.

Me parece muito importante apontar  também a necessidade de nos questionarmos sobre onde vai chegar tudo isso. Para mim, ao menos, parece que há muito por acontecer ainda. O que fica claro é que esse sistema não se sustenta, e as pessoas querem falar, querem ser ouvidas, e a rua está sendo esse espaço agora. A rua concentrou todas essas insatisfações.

Mas, que sociedade é essa que queremos? Difícil, hein. Eu sei o que eu quero, mas e o que todos querem? É tanta coisa reprimida, tantos anos daquela sensação de nó na garganta e aperto no peito que quer se libertar a todo custo. A raiva contida exala de cada um de nós, de formas diferentes. Se o povo não governa, não há democracia de fato, mas como satisfazer tantas demandas? Elas não serão supridas em uma única página, num único acordo e nem pode se tornar algo apenas para inglês (ou suiço) ver.

Penso que o que deverá ser trabalhado é um novo modelo de democracia. Uma democracia construída no dia a dia, participativa, libertadora. Algo que demandará algum tempo.

Ao observar esses pontos, creio que a palavra tolerância nunca ganhou tanto sentido, e mais do que nunca deverá estar presente quando o momento chegar. Como contemplar tantas demandas se não for dessa maneira? Até onde você será capaz de abrir mão e ceder em prol de algo maior. Muita tolerância, conversa e paciência serão necessárias.

Mas por hora, não devemos esquecer que há ainda muita gente por acordar...



O extravasamento da indignação com os problemas do dia-a-dia, que fica muitas vezes restrita ao particular, às conversas indignadas nas muitas filas (do banco, do hospital, do ônibus), às rodinhas de aposentados nas praças, aos horários de café do trabalho, às mães nas portas de escola, etc. A "indignação indigna", a que só serve para extravasar a raiva e a tensão, têm que ganhar espaço, ganhar voz, ganhar as ruas.

Então vamos lá pessoal, levantar desse sofá, limpar essa baba da cara, sacudir os salgadinhos do corpo e vamos pra rua.

Lembrem-se que nós não somos conduzidos, nós é que conduzimos.

Todos à rua já, temos muito por conquistar. Isso é só o começo.

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