(I) Mobilidade Urbana





Profº Neto Almeida
Redação d'O Historiante

“Ô seu dôtor, por favor, arranque o braço, mas não jogue no rio”. A fala até poderia ser usada nas criativas charges de jornais ou páginas de redes sociais na internet, contudo, é tristemente identificável a que se refere. Mais um dos inúmeros acidentes, que não foram acidentes, deixando mais uma pessoa sem um membro o qual não fazemos a menor noção de sua importância.

Muito tem se falado nos últimos anos no Brasil sobre mobilidade urbana. Entendo que quando retornamos inúmeras vezes ao assunto é porque de fato não compreendemos, ou possuímos nada deste. É bem assim que acontece hoje nas grandes capitais: desde São Paulo, o maior centro financeiro do país, passando por cidades turísticas como Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza e tantas outras que é inviável lançar mão de um relato numérico. Não se tem a menor noção de mobilidade urbana, por isso que se busca tanta explicação.


Imagine só, um congresso realizado sobre o trânsito nas cidades atrasou seu início por conta do engarrafamento que os palestrantes tiveram que enfrentar para chegar ao local do evento. Parece piada? Não, não é.

Prefeituras, Governos Estaduais, Governo Federal enchem seus discursos sobre novas arrecadações de verbas, liberação de recurso, ampliação da malha viária e rápida resolução do problema urbano. A verdade é bem mais lenta e mais complicada. Enquanto as ruas são entupidas por veículos poluentes, como os carros particulares, que reservam o conforto para poucos, e os ônibus públicos, também conhecido como transportes coletivos, abarrotados, carregando seus passageiros para despejá-los no próximo ponto, os políticos fazem seu "blá, blá, blá" e promovem a maior imobilidade possível.

O resultado? Cá estou eu, escrevendo indignado mais uma vez por andar mais rápido que um veículo movido a sei lá quantos cavalos de potência, mas que se mostra ferrenho ao mais comum dos engarrafamentos diante dos sinais, faróis fechados e conturbados pelo caos matutino e vespertino. Certa noite cheguei a minha casa antes do meu ônibus, simplesmente porque desço e vou a pé. Outro resultado? Acidentes, cadáveres nas ruas, jogados como animais, atropelados e mortos pela imbecilidade de quem dirige seu veículo que sempre tem todas as preferências.

E tão difícil se movimentar nas cidades do Brasil que é matéria de jornal o primeiro dia do ano, quando praticamente ninguém vai às ruas dos grandes centros, ou pelo menos, fogem daquela rotina de carros, buzinas, violências verbais e físicas. Por falar em algo anormal, outro dia parado para atravessar a faixa de pedestre, um motorista parou e permitiu a preferência a um cadeirante do meu lado, cena que merecia aplausos, só porque não é comum, mas deveria ser.

Soluções? Construção do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), ótimo! Para quando? 2020. Precisaremos do dobro de Km projetado hoje, mas dizem ser uma solução. Não, solução mesmo é alargar as avenidas, asfaltar outros espaços e preencher de fluxo aqueles que ainda se encontram "virgens" dessas mazelas. Melhor, desmatar áreas com cobertura vegetal e expandir a cidade para essas regiões com a finalidade de descentralizar. Preocupante são todas essas soluções, nenhuma criada por mim, todas ditas e prometidas por engenheiros, secretários de urbanismo e políticos.

E se usássemos outros veículos? Será que melhorando o transporte público, tornando-o de qualidade, não ajudaríamos nossas cidades? Creio que falta interesse para isso, é óbvio. Mais qualidade nos ônibus, metrôs e trens, maior número de pessoas utilizando estes e não carros. Como consequência: menor número de congestionamento, estresse e mortes. Mas não é nada simples. Medidas mais ambientais são cada vez mais necessárias. O meio ambiente está por completo na matéria de capa dos jornais. Usam a bicicleta como uma reeducação nos descolamentos urbanos. A Europa, principalmente, os Países Baixos, Alemanha, e outros como exemplo que utilizam com frequência e é parte do cotidiano das pessoas que possuem nas cidades mais bicicleta do que carro. Um sonho no Brasil.



Talvez seja por esse caminho, sem trocadilhos da palavra, maior promoção da saúde, melhor veículo de condução, reduzir os altos índices de poluição e favorecer uma maior interação entre habitantes. Para além de um desafogo no conturbado trânsito das cidades, as bicicletas valeriam de suporte para uma novo estilo de vida.

Ainda é um sonho, porque nem usamos a bicicleta para ir, nem respeitamos os que vão nela.

Porém, defendo e acredito que um dia será possível isto e lembro de uma famosa frase, trecho da música de John Lennon: "Você me chama de sonhador, mas não sou o único". Dias melhores virão.


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