A revolução não será televisionada (ou, O Vale Acordou!)



Prof. Pablo Michel Magalhães
Redação d'O Historiante


Apitos, gritos, cânticos. Coros, choros, suspiros. Pessoas que caminham, braços dados, sem aparente direção pré estabelecida, mas que sabem o rumo que querem. Aos poucos, uma melodia é ruminada, baixinho, ganhando volume e novas vozes gradativamente. Agora, já é uma canção, entoada por milhares de pessoas com caras pintadas, enfatizando que a pátria não mais está "deitada eternamente em berço esplêndido", e que ela pode confiar em seus filhos que não fogem à luta. Confesso que sinto arrepios: vejo jovens e idosos, pais e filhos, mães, mulheres, brancos, negros, amarelos, juntos, sem medo, cantando a plenos pulmões o hino nacional, sem distinções, com um único propósito, apesar das várias reivindicações. Querem respeito e justiça nesta boa terra Brasil!

O povo acordou? Me questiono. Ouvi e li repetidamente isso nos últimos dias, diante dos acontecimentos em torno do Movimento Passe Livre e das mobilizações nacionais nas ruas do país. Mas, sou forçado a não concordar com essa afirmativa. Não posso dizer que o Brasil acordou só hoje, que o povo acordou só hoje, que saiu da letargia em que vivia. Como afirmar isso, e negligenciar tantas lutas que já foram travadas por movimentos populares em nossa história? Como posso esquecer dos Tamoios e dos Cariris, índios bravos que resistiram à dominação portuguesa? Ou a revolta popular contra o aumento de vinte réis na passagem dos bondes no Rio de Janeiro, no século XIX? E mesmo a revolta do Quebra-quilos no Nordeste, também orquestrada pela população, que se sentia prejudicada com a modificação do sistema de pesos e medidas imposto pelo governo imperial? Sem contar com todos aqueles que lutaram ao custo da própria vida nos anos de repressão e violência da Ditadura Militar!

Não, não posso apagar isso da memória, não posso simplesmente esquecer dessa história! O povo brasileiro não acordou apenas hoje, ele esteve sempre desperto, e agora, mais do que nunca, sai às ruas, fazendo valer seu direito nesta Res Publica (Coisa do Povo!), para mostrar a todos esses digníssimos sínicos do poder que eles não podem mandar e desmandar a seu bel prazer. Assim, caríssimos, para toda ação há uma reação! E nossa ação está aí, nas ruas, nos cânticos, na atitude, nas palavras e nos gritos, na nossa indignação, na nossa insatisfação. Vândalos? Baderneiros? Não resumam nossa maioria consciente e pacífica à meia dúzia de arruaceiros.

Queremos mudança, e nossos passos no asfalto irão demarcar o território legítimo do povo brasileiro, em sua marcha contra a corrupção e o mal caratismo da quase totalidade dos políticos desse país.

São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza... e o Vale do São Francisco! A população de Petrolina e Juazeiro, cidades gêmeas (agora mais do que nunca), também sai às ruas, para engrossar a fileira, soltar a voz, e mostrar que as águas doces do Velho Chico também podem se tornar turvas e indomáveis para aqueles que exploram a população. Mas o Vale não acordou apenas agora: ele está desperto, sempre esteve atento, e agora irá fazer valer, mais uma vez, o direito de se manifestar e protestar contra toda essa lama asquerosa que teima em sujar nossa história.



Não se trata de 0,20 centavos, não se trata de 0,10 centavos, ou qualquer outro valor que absurdamente irá elevar ainda mais as tarifas no transporte público. Trata-se de educação, negligenciada e relegada à miséria; trata-se da saúde, vilipendiada em hospitais públicos decrépitos e sucateados; trata-se de dignidade, respeito, de longe direitos que não são contemplados em nosso país.

Trata-se da minha Petrolina, da minha Juazeiro, transformadas em palco de horrores, em circo, com um transporte público caríssimo, com total negligência à educação, mas, sempre, com mega shows, prontamente organizados pelos políticos, pra tentar silenciar as queixas, fazer-nos esquecer dos problemas. Como se isso fosse possível! (e não é, nunca foi, nunca será!)

Sou mais um ribeirinho são franciscano, baiano/pernambucano, brasileiro, e apoio o movimento O Vale Acordou! e todas as manifestações populares em nosso país contra os de cima!


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