Nós estamos do outro lado da rua





Prof. Pablo Michel Magalhães
Redação d'O Historiante


Já falei aqui sobre os sóis de dezembro e as ilhas de concreto que o governo vem construindo; explanei sobre o teatro dos vampiros e de como o "amor" dos políticos para com os cidadãos pode ser algo tão "adorável" quanto os becos sujos da cidade; falei sobre o pão, o circo e o modo como nos tornamos palhaços nessa história toda. Porém, "indiferente de tudo que pensamos", muita podridão continua rolando na política tupiniquim.

Interessante (e eis a ironia de utilizar esse adjetivo) é notar que os sujeitos que movimentam o teatro de sombras são figurinhas antigas, carimbadas e, até mesmo, faces risonhas de uma ridicularização nacional! Em nossa dita democracia, há pessoas no poder há mais tempo do que a idade que hoje tenho. Isso faz parte do processo democrático? Me dizem que sim, que eles estão lá em função do voto, e que a culpa é minha. Esse argumento também é muito interessante: se há corrupção, roubalheira, tráfico de influências, nepotismo, apadrinhamentos, funcionários fantasmas, etc, etc, o culpado sou eu, porque "votei errado", "escolhi mal". Isso vem sendo repetido infinitamente, quase que inconscientemente, ano após ano, como ferramenta que "legitima" os atos dos políticos corruptos. "Olha, eu estou roubando porque você, caro cidadão, que paga suas contas e os pesados tributos, votou errado. Escolhe melhor na próxima, ok?". 




Em verdade, vos digo: na platéia, há muitos que aplaudem esse tipo de arguição, e resolvem se acomodar nas poltronas, comendo suas pipocas, cochichando com o colega ao lado "É mesmo, isso é natural. A vida é assim, tenho mesmo é que tirar proveito disso". E eleição após eleição, o "marajalato" público se mantém, cobrando altíssimos salários (quase 30 mil por mês para cada parlamentar) para trabalhar 3 dias por semana e achar isso "serviço demais" (não é mesmo, caro Mozarildo Cavaltanti?). O fato é que, seja com o voto "certo" ou com o voto "errado", temos os políticos mais caros do mundo! Por um lado ou por outro, a sociedade brasileira é violentada.




Em contraponto com esses rendimentos de estrelas de Hollywood, o trabalhador ordinário, que vive sua vida ordinária (e vota errado, não é Calheiros?), recebe seus 678 reais mensais e agradece aos seus governantes! Dinheiro demais, não? É, "não é fácil pra mim, não é fácil pra ti", imagine para quem sequer abriu os olhos pra enxergar que há muita poeira por baixo do tapete em que valsamos e que, apesar de alguns novos rostos estamparem campanhas políticas, os velhos sujeitos continuam dançando sobre o mesmo solo. Estão aí as famílias que se renovam no poder público (os Sarney no Maranhão que o digam), pra exemplificar o argumento.

Grito e canto ao mesmo tempo: "Abra os seus olhos, mostre-me sua mente, faça da realidade salvação"! Os políticos condenados no caso do Mensalão estão, pouco a pouco, retornando, sorrateiros, para postos governamentais, apoiados pelos acordos e conchavos dos partidos. Outro que retoma suas atividades é Renan Calheiros. Após renunciar ao posto de presidente do Senado, em função da denúncia do Ministério Público no Supremo Tribunal Federal contra si (desvio de dinheiro público, falsidade ideológica e uso de notas falsas), 5 anos passados, ele volta a ocupar o mesmo cargo!

E você, nessa história toda?

Cada dia que passa, mais e mais, descubro que "nós estamos do outro lado da rua", esquecidos, marginalizados, impossibilitados de atravessar a rodovia por muros que sequer existem. Os políticos têm privilégios de todos os tipos e gozam da tal imunidade parlamentar, o que os torna intocáveis, inacessíveis e, decorrente disso, impuníveis. De braços cruzados, achando "natural" e "normal", permitimos isso.

1 milhão e 600 mil pediram (e eu também) o impeachment de Renan? A resposta dele foi sintomática:

"A mobilização na Internet é lícita e saudável, principalmente, entre os jovens. Fui líder estudantil, todos sabem, e também usei as ferramentas da época para pressionar. O número de assinaturas não é tão importante quanto a mensagem, o que importa é saber que a sociedade quer um Congresso mais ágil e preocupado com os problemas dos cidadãos. E assim o será."

Calheiros transformou uma mobilização séria e legítima em uma brincadeira juvenil. "O número de assinaturas não é tão importante" pra ele, porque a mensagem é o que importa. Ótima saída pela tangente, digna de um político tupiniquim. E esse é apenas um dos milhares de exemplos de como a impunidade faz com que os dirigentes eleitos se sintam totalmente à vontade pra tripudiar das mobilizações populares.

"Soluções?", você me questionaria. Não as tenho aqui, prontas, acabadas, modeladas. Apenas caminharemos em alguma direção a partir do diálogo e do compartilhamento de ideias. Pé ante pé, tomamos consciência de que isso tudo não é "natural", e que esses palhaços devem respeitar a população, e que nós mesmos somos os agentes que promovem a mudança, ou nada feito. Até lá, continuamos do outro lado da rua...

"Mesmo assim vou tentar outro dia
Mesmo assim vou te escrever amanhã
Insistirei até o último suspiro
Para que você seja feliz"



*     *     *

Aos atentos, utilizei trechos de uma canção muito boa, porém não tão conhecida como merece. "Do Outro Lado da Rua", da banda de Rock progressivo Andranjos. Recomendo ouvir (no volume máximo).

Música online (Clique aqui)

ou

Confiram vídeo ao vivo:


Comentários

  1. Muito legal a materia. Gostei do uso da musica "Do outro lado da rua" - do Andranjos.
    Essa é infelizmente a realidade do nosso país.
    Enquanto o povo continuar acomodado, continuaremos do outro lado da rua, sem poder atravessar e punir tais politicos corruptos.

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  2. Sei não.... Tudo vai continuar assim até que uma ação radical, do tipo "ceifadora de cabeças" seja implantada por algum grupo organizado.
    Sou contra a violência, mas não consigo enxergar outra solução para tal descaso desses parlamentares que forjam todas as defesas de seus reinados sanguessuga.

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