De Luísa no Canadá ao Harlem Shake: os virais da internet e o padecimento da informação.


Prof. André Araújo
Redação d'O Historiante


A internet é uma das grandes invenções do século XX. Desde seu surgimento até a sua popularização, ela vem operando uma série de transformações em nossa sociedade. Algumas destas passam quase como invisíveis e mudas. Algumas pessoas acreditam que esta mudanças consistem apenas na “virtualização” da vida humana. Ainda não se sabe quais as fronteiras que essa poderosa ferramenta pode alcançar ou romper.




A velocidade da circulação da informação parece ser a faceta mais evidente e mais elogiada com o advento da internet. No entanto, como diriam nossos avós: “beleza não põe mesa”; “quem come demais, logo se entala”. A sabedoria dos mais velhos é aqui consultada para lembrar-nos que prudência nunca é desperdício. A internet que encanta pela velocidade e redução de distâncias vem influenciando os meios de comunicação de várias formas. Umas boas, outras nem tanto. Se, por um lado, a facilidade, democratização e o barateamento do acesso às notícias são um ganho, por outro, a qualidade e a veracidade das notícias vêm sofrendo grande prejuízo. E isso não implica apenas nas notícias veiculadas na “grande rede”. Os jornais impressos e os televisivos vêm mudando seu formato para se manterem competitivos e rentáveis diante da concorrência da internet, gratuita e abundante em informação.

Os jornais impressos vêm reduzindo a quantidade de páginas. Editores estão permitindo a utilização de uma linguagem cada vez mais “pobre” de vocabulário. As notícias veiculadas são as mais despolitizadas e banais possíveis, além, é claro, da banalização da violência, que vem funcionando como carro-chefe dos periódicos. Ah! Estas mudanças estão barateando os jornais. Recorrendo aos adágios populares: o barato ta saindo caro!


Já diria Ben Parker, o tio do homem-aranha, que “grande poderes exigem grandes responsabilidades”. E a relação que mantemos com essas novas tecnologias não tem sido, muitas vezes, responsável. Seja como consumimos, incentivamos ou apenas nos calamos diante dessas transformações tecnológicas. A facilidade e velocidade do acesso à informação vêm produzindo um interesse e crescente popularização de vídeos e expressões virais na internet. Infelizmente, esses virais não são instrumentos que expressem uma preocupação política ou mesmo um sinal de engajamento com questões coletivas que visem a solidariedade entre as pessoas. Raras exceções, como a petição online de cassação a Renan Calheiros e pela extinção do voto secreto no senado, têm um propósito político. Geralmente os virais são inúteis, nada elaborados, são cópias de um besteirol qualquer, que reforçam uma visão de mundo burguesa, idiotizada e totalmente acrítica!

 



Grande parte dos usuários da internet conhecem o tal do “Harlem Shake”. Muitos riem, outros ignoram. Alguém lembra da expressão viral “menos Luísa que foi pro Canadá”? Pois é! Os virais vem e vão. Luísa, Gangnam Style, Harlem Shake... Muitos devem vir ainda. A televisão ajudou e ajuda a popularizar uma série de preconceitos ou imagens equivocadas de locais, indivíduos ou grupos. “Na Bahia só tem rede e preguiça”, “gaúchos são gays”, “cariocas são os mais malandros”, “favela só tem ladrão, traficante e gente perigosa”. A internet se coloca como herdeira da propagação de visões de mundo estereotipadas. Obviamente que a internet não se faz sozinha. Homens e mulheres desatentos, ou até muito interessados nesse tipo de produção barata e de fácil vulgarização, são os responsáveis pelo padecimento da informação como uma maneira de formação dos indivíduos e instrumentalização para um posicionamento e atuação crítica em nossa sociedade.


"Você conhece a história do Harlem?"

vídeos do "Harlem Shake" com cerca de 60 milhões de visualizações. Sem graça, curtos, passageiros e reproduzidos muitas vezes por pessoas que apenas querem seus segundos ou minutos de fama. Sem nenhuma finalidade, senão simplesmente aparecer! Alguns poucos aproveitam os virais para dar um viés político, como feito no Rio de Janeiro, onde estudantes adaptaram o tal do Harlem Shake a um protesto nas ruas contra Renan Calheiros no Senado.

"Isso é estranho, Isso é estranho. O que eles estão fazendo?"

"Parem esta mer...!"
E será que a população do Harlem, um tradicional bairro negro da cidade de Nova Iorque, que revelou nos seus circuitos culturais uma das maiores cantoras já ouvidas, a sensacional Billie Holiday, se identifica com o viral? Se vêem representados ou vêem uma associação depreciativa e idiotizada do seu bairro (confira a opinião dos moradores do Harlem sobre esse viral)? Sim, mesmo na surdina, os virais podem ajudar a silenciar questões extremamente importantes, como a identidade de um determinado local. E essa reprodução barata e de pouca qualidade ainda tem espaço para primeira página em jornais de grande circulação! Reflexo de uma sociedade despreocupada com os custos das facilidades da modernidade e preocupada apenas com a diversão. Como diria um professor de comunicação de New York: “Parece que queremos nos divertir até a morte”!


Comentários

  1. André, como sempre, desenvolvendo uma acurada crítica à sociedade. Seriam os virais sintomas da "idiotização" do ser humano? Ao mesmo tempo que auxilia na divulgação de ideias e no agrupamento de pessoas em torno de um propósito, a internet também é palco para a banalização e o "besteirol". Ferramenta dúbia, e muito forte. Ótima reflexão, caro. Grande abraço.

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  2. Mais uma vez nosso "Dorival Caymmi" fez uma análise perspicaz, tocou num ponto pecador da Santa e idolatrada Internet. De fato precisamos avalia-la e precisamos reconhecer os limites dessa ferramenta, simbolo de nossa geração.

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  3. Só esqueci de comentar que esse tal do "Harlem Shake" é uma dança originalmente feita pelas pessoas das ruas Harlem, mas não tem absolutamente nada a ver com os videos que todo mundo conhecem. De fato é um ritmo antigo, aparentemente executado por volta do final dos anos 70 e inicio dos anos 80. As pessoas do Harlem quando tiveram acesso aos virais tiveram uma revolta em serem de alguma forma referenciados pelo vídeo tosco. Seria, mais ou menos, o mesmo tipo de revolta que um gaúcho teria ao ser associado a um gay (daqueles tipos estereotipado e com todos os exageros possíveis).

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