"O preço que se paga às vezes é alto demais"





Prof. Lucas Adriel S. de Almeida 
Redação d'O Historiante



Na Roma antiga, a chamada “política do pão e circo” foi utilizada para “desviar” a atenção das pessoas da real situação na qual estavam submetidas.  Os grandes espetáculos, aliados a distribuição de pão em meio ao entretenimento proporcionado, conseguiram manter as pessoas alienadas em face das desigualdades sociais e da pouca ou nula mobilidade social da época. Logicamente, essa política se conjugava a alguns outros fatores estruturais da sociedade da Roma Antiga para compor o sistema. Mas estes eram outros tempos, pode-se dizer. Até concordo que os tempos eram outros, mas se observarmos cuidadosamente, veremos que algumas coisas realmente mudaram, outras não.

O fato de vivermos em uma sociedade “democrática”, diferente da pouca liberdade existente nos governos das sociedades desenvolvidas na antiguidade, consiste numa mudança real, mas devemos entender que tipo de democracia possuímos. A nossa democracia é apenas parcial, limitada principalmente pela falta de condições que permitam o acesso à educação, ou à educação de qualidade. Outras questões estruturais, como a secular desigualdade social, delineiam bem os limites do exercício democrático que nos é possível. Assim sendo, pra que não percamos o foco deste texto, acho que já podemos perceber que temos diferenças sim, mas também similaridades com as sociedades antigas.

No decorrer dos anos, se vinculou a imagem do Brasil a apenas dois dos elementos característicos de sua cultura: o carnaval e o futebol. Construiu-se assim a caricatura de um país que vive em permanente entretenimento. Ou não é comum ouvirmos dizer que por aqui todo dia é carnaval, e que o Brasil é o país do futebol?  Sim, estes dois elementos da nossa cultura foram valorizados de tal forma que hoje desfrutam de existências quase mágicas, pertencendo aos devaneios de muitos, sob os mais diversos ângulos. Em síntese, o circo ainda está montado.

Num país com enormes deficiências no que há de mais elementar para o desenvolvimento de uma sociedade, como na educação e na saúde, assistimos orgulhosos ao levantar de templos ao esporte. Estruturas de valores incalculáveis são erguidas, desacompanhadas de qualquer projeto de base relevante, um projeto que desperte nas crianças os benefícios e a construção dos valores humanos que acompanham o esporte. Não se procura com estes eventos promover mudanças estruturais em nossa sociedade, a ideia consiste apenas na montagem dos palcos e na execução de shows. Em síntese, o circo ainda está montado.

Mas onde está o pão? Ainda é possível questionar. Como concordamos no início, os tempos são outros. No sistema capitalista, vende-se o pão e uma infinidade de outras coisas. Ao admitirmos que se venda o  pão, a política do circo se torna suficiente para produzir na sociedade um processo de alienação social satisfatório. Esta simples constatação torna tudo mais lucrativo e o controle social mais eficiente. Bom, mas o que dizer senão lembrar-se de uma canção que diz assim: “o preço que se paga às vezes é alto demais”, o que antes era de graça, hoje é comercializado... e só relembrando da canção: “o preço que se paga às vezes é alto demais”.

Comentários

  1. lembro que quando li o livro A Janela de Overton havia a citação que coloquei nesta imagem: http://i.imgur.com/gSeNHII.jpg?1

    e a cada dia mais me convenço sobre as imensas semelhanças que a classe política manteve ao passar do tempo, em geral essas semelhanças dizem respeito ao uso do Estado para se beneficiar em detrimento da maioria dos cidadão.

    o investimento numa educação que também forme cidadão em vez de apenas formar profissionais (nem tão profissionais assim) permitiria uma mudança drástica neste quadro, mas isso é algo que demanda tempo, investimento e não é garantia de votos, a sede pelo poder é imensamente maior que o senso de justiça social e de compromisso com os eleitores

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