Dica cultural - O Som que vem do Mangue

Prof. Carl Lima
Redação d'O Historiante


“Eu vim com a Nação Zumbi
Ao seu ouvido falar
Quero ver a poeira subir
E muita fumaça no ar
Cheguei com meu universo
e aterrisso no seu pensamento
Trago a luzes dos postes nos olhos
Rios e pontes no coração
Pernambuco embaixo dos pés
E minha mente na imensidão.”
(Mateus Enter, álbum Afrociberdelia)

Esse canto reverbera  por onde a banda pernambucana Nação Zumbi toca seus tambores de alfaia, seja em terras brasileiras, seja nas diversas apresentações pelo globo terrestre.  De onde vem essa energia e força? Mais: como uma banda formada por jovens da periferia do Grande Recife, nordestinos assumidos e convictos, conseguiram arrombar a porta sem avisar do mainstream, se colocando como o que de mais inovador surgiu na usina musical brasileira, pelo menos desde “Os mutantes”? A resposta, sem muita delonga: a criatividade.  Nascida do espirito de sobrevivência cultural com objetivos claro de escapar do marasmo que marcara o inicio dos anos 1990, naquele Recife que se colocava entre as 4 piores capitais brasileira em IDH.


    Recife, Palafitas, década de 1990.

É bom acrescentar que os futuros membros da Nação Zumbi não estavam sozinhos. Muito pelo contrário, aquele desejo de inventividade/criatividade dominava toda uma geração, substantivamente heterogênea. Articulavam na mesma órbita fãs/músicos de Punk-rock, samba-reggae, Hip Hop; maracatu, ciranda, psicodelia, Funk.  Justamente dessa alquimia coletiva surgiu o Movimento MangueBeat e seus filhos prodígios,  os Mangue Boys. Para se auto-apresentarem/representarem, os “caranguejos com cérebros” lançaram, em 1991, um manifesto:


                            Os Caranguejos-mor: Chico Science e Fred Zero Quatro


Mangue, o conceito:
Estuário. Parte terminal de rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo. (...)
Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas são tidos como símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.

Manguetown, a cidade:
A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex)cidade *maurícia* passou desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais.
Em contrapartida, o desvario irresistível de uma cínica noção de *progresso*, que elevou a cidade ao posto de *metrópole* do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.
Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história, para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação, aliada a permanência do mito da *metrópole* só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano.

Mangue, a Cena:
Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.
Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo era engendrar um *circuito energético*, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.
(...)
Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown.


                           Monumento ao Manguebeat em Recife


De onde vinha à inspiração para essa criatividade? Para Francisco de Assis França, o mais notável dos malungos, o conhecido e reconhecido Chico Science, advindo da mistura rítmica e da fome de informação daquela geração que perambulava pelos becos, ruelas, pontes e canais da metrópole pernambucana. O cotidiano deles se organizava numa busca incessante de compreensão da cidade e de si próprio, tendo a música enquanto vetor. Nessa empreitada estavam, dentre tantos: DJ Dolores, Fred 04, Jorge Du Peixe, Otto, Lucio Maia, Gilmar Bola Oito, Siba, Fabio Trummer.  Desse contato surgiram algumas bandas: Mundo Livre S.A; Eddie, Mestre Ambrósio, Loustral; Delta do Capibaribe; Xamã; Maracatu Nação Pernambuco. Isso nesse momento inicial. Posteriormente apareceriam Mombojó,  Cascabulho, Los Sebozos Postizos e, para além das fronteiras do mangue, brotaram Cabruêra e o Cordel do Fogo Encantado. Em termos locais, a cena estava formada, e o espaços ocupados. No entanto, não tardaria – idos de 1993 – para que o mundo conhecesse o novo som que ecoava do Pernambuco. 




   Considerado um movimento cultural, incluindo em seu bojo cinema, fotografia e literatura, o MangueBeat  destaca-se menos por uma unidade estética - basta apreciar a diversidade de som produzido pelas bandas: temos desde  um Funk-maracatu, passando por um Samba-hardcore, chegando ao heavy-samba,  sem contar o surf-music cirandado e a psicodelia-dramática com lamento negro -,  do que por temática de cunho urbano, buscando dar visibilidade a sujeitos/culturais antes esquecidos no limbo do folclorismo. Nessa experimentação criativa, existia uma preocupação em articular a produção cultural local/tradicional com a mundial/globalizada, assim, foi muito comum uma fusão nada óbvia de James Brown, Afrika Bambaata, Mettalica e Megadeth com Bezerra da Silva, Jorge Ben, Dona Cila do Coco, Mestre Salustiano e Lia de Itamaracá. Enfim, a originalidade do movimento está em retrabalhar os ritmos pernambucanos – coco, ciranda, maracatu – do jeito que eles são, sem alterá-los, mas acrescentando além dos tambores, ganzás, caixa e percussão, guitarras potentes, teclados harmônicos e cavaquinhos eletrificados. O próprio Chico Science, numa entrevista ao Jornal do Brasil em 15/04/1994, explicita a intenção dos malungos: “Queremos misturar o roquenrol com as influências que a gente teve, como o disco dos anos 70. Queremos trabalhar ritmos nordestinos com diversão. Nós acreditamos nessa ideia de incentivar a música popular brasileira para que ela seja realmente pop. Queremos dar um sampler para um repentista.”

                           Primeira Formação do CSNZ

     Justamente nessa empolgação e clima de criatividade que a Nação Zumbi, inicialmente denominada de CSNZ (Chico Science e a Nação Zumbi), formada da junção de músicos das bandas Loustal ( Lúcio Maia, Alexandre Dengue, Jorge Du Peixe) e do Lamento Negro (Gilmar Bola 8, Toca Ogan e Canhoto) a partir de varias apresentações que fascinavam a todos aqueles que testemunhavam, assinaram contrato com uma das maiores gravadoras mundiais, Sony Music, propiciando com isso a produção do já clássico “Da Lama ao Caos”, em 1994.  Esse álbum representa literalmente o afincar da parabólica no mangue – umas das simbologias do movimento – confluindo todas as características, por aqui já descritas. Difícil de conceber naquele momento esta banda, apresentada duplamente como Rock n’roll, fazendo um som sem o uso da bateria, e como música regional nordestina, usando guitarra potente distorcida. Parecia uma combinação impossível. Mas deu certo, mesmo a experiência no palco sendo muito mais furtiva que a engenhosidade sonora do estúdio “Nas Nuvens” comandado pelo destacado produtor Liminha, responsável por produzir este que é considerado o 13º melhor disco da música brasileira do século XX.



No set list desse clássico, temos composições do calibre de: “Banditismo por uma questão de classe”; “Samba Makossa”; “Maracatu de Tiro Certeiro”; “Computadores Fazem Arte” e “Risoflora”. Chamo atenção particularmente para três criações/composições:

“A Cidade”:  uma verdadeira ode crítica e reversa  as urbes brasileiras, com forte inspiração do cotidiano recifense. Vejamos:
“O sol nasce e ilumina as pedras evoluídas
Que cresceram com a força de pedreiros suicidas
Cavaleiros circulam vigiando as pessoas
Não importa se são ruins, nem importa se são boas
E a cidade se apresenta centro das ambições
Para mendigos ou ricos e outras armações
Coletivos, automóveis, motos e metrôs
Trabalhadores, patrões, policiais, camelôs”


Na letra percebemos um discurso forte e consciente e principalmente de inquietação e denúncia:

“A cidade não pára, a cidade só cresce
O de cima sobe e o de baixo desce
A cidade não pára, a cidade só cresce
O de cima sobe e o de baixo desce”.

Mas o otimismo e a crença na mudança também são tônica evidenciada:

“A cidade se encontra prostituída
Por aqueles que a usaram em busca de saída
Ilusora de pessoas de outros lugares
A cidade e sua fama vai além dos mares
No meio da esperteza internacional
A cidade até que não está tão mal
E a situação sempre mais ou menos
Sempre uns com mais e outros com menos”


Em termos de sonoridade, explicitam-se riffs de guitarras, extremamente bem elaboradas por Lúcio Maia, casadas com uma sonoridade afro da percussão.

Já a canção “Antene-se” é uma  apresentação ao movimento MangueBeat, numa conexão cidade/sujeitos:

"É só uma cabeça equilibrada em cima do corpo.
Escutando o som das vitrolas, que vem dos mocambos,
Entulhados à beira do Capibaribe
Na quarta pior cidade do mundo.

É só uma cabeça equilibrada em cima do corpo
Procurando antenar boa vibrações.
Preocupando antenar boa diversão.
(Sou, Sou, Sou, Sou, Sou Mangueboy!)

Recife cidade do mangue,
Incrustada na lama dos manguezais,
Onde estão os homens caranguejos.
Minha corda costuma sair de andada,
No meio das ruas e em cima das pontes."


Essa embolada pesada é reconhecida como o Manifesto dos “Caranguejos com cérebro” musicado.

A homônima do álbum, “Da Lama ao caos”, é um verdadeiro clássico da musica brasileira, cantada e recantada por artistas e públicos variados em festivais por todos os recantos. Essa canção representou uma inovação sonora, inclusive inicialmente causando estranhamento do público acostumado com outra estrutura harmônica. Temos um baixo “funkiado”, com riffs de guitarra psicodélica e uma percussão que ora tem o peso do maracatu, ora acalma-se na caixa da Ciranda. Se pudéssemos definir, seria  então um Funk-Maracatu-Rock.

No que tange à letra, percebemos uma forte influência das ideias do médico e intelectual pernambucano Josué de Castro, que se destacou mundialmente por livros e artigos que abordavam a problemática da fome que atingia e atinge as principais cidades brasileiras:

“Peguei um baláio, fui na feira roubar tomate e cebola
Ia passando uma véia, pegou a minha cenoura
'Aí minha véia, deixa a cenoura aqui
Com a barriga vazia não consigo dormir'
E com o bucho mais cheio começei a pensar
Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar
Que eu me organizando posso desorganizar”


Utilizando o recurso da intertextualidade, Josué é chamado para contribuir, com a autoridade de ter sido um dos primeiros a reconhecer uma relação simbiótica entre a cidade do Recife e seu mangue:

"O sol queimou, queimou a lama do rio
Eu ví um chié andando devagar
E um aratu pra lá e pra cá
E um carangueijo andando pro sul
Saiu do mangue, virou gabiru

Ô Josué, eu nunca ví tamanha desgraça
Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça"



Esse álbum foi apenas o inicio de tudo, a solidificação de um projeto que brotou e reproduziu-se das ruas para o mangue, ou quem sabe o inverso. De lá para cá são quase 20 anos de pura diversão, criatividade, mistura, coragem e antes de quaisquer coisas, qualidade.  Então, “Chila Relê Domilidró”




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