Muito mais que uma questão de "não ter eira nem beira"



Mafalda , de Quino.

Prof. Lucas Adriel S. de Almeida.
Redação d'O Historiante

Não é algo incomum, principalmente em tempos de tanta participação popular nos processos decisórios do nosso país, ouvirmos falar de que o Brasil é uma nação democrática. O principal argumento para sustentar este discurso, se pauta na prerrogativa de que nós brasileiros temos o direito de escolher os nossos representantes, nossas lideranças. Desta forma, alegam muitos, como não estaríamos vivendo, portanto, uma democracia? Entretanto acredito que, como já citei aqui em outros textos, apesar de não discordar que esta democracia exista, entendo que ela é apenas parcial, já que o exercício democrático é balizado por diversas outras questões, questões estas que o impedem de existir em sua plenitude.

Uma questão central em todo este processo é a educação. Já na Grécia Antiga, a restrita democracia existente, entendia a necessidade de uma preparação de parte da população para o exercício democrático. Desta forma é complicado falar em democracia - no seu sentido mais amplo - sem deixarmos de pensar quais instrumentos são imprescindíveis existir numa sociedade para que tal empreendimento seja, de fato, vivido pela totalidade de seus cidadãos. A democracia, em qualquer sociedade, se desenvolve através da adoção de certos mecanismos na estrutura social, que  muitas vezes são incompreendidos por significativa parcela da população. Neste contexto, a ideia de liberdade de escolha fica demasiadamente agredida.

A noção que colocamos de liberdade, não passa somente pela possibilidade da escolha, mas passa principalmente pelo entendimento amplo dos mecanismos que criam as escolhas possíveis, inclusive, para além das que estão apresentadas. O simples fato de "participarmos" das escolhas dos representantes políticos ou de dispormos do direito de opinar sobre determinados assuntos fundamentais em nossa estrutura social , isto de forma isolada, não nos torna livres. Acreditamos, e é o que buscaremos demonstrar neste texto, que liberdade passa por algo mais profundo.




Uma questão central dentro deste processo é que vivemos em uma sociedade que relegou as questões estruturantes para qualquer sociedade, como educação e o direito a cidadania, um lugar marginal, dando a questão financeira a centralidade deste contexto e promovendo, dentre outros males, a proliferação de uma cultura de massa que tem por objetivo homogenizar as opiniões, naturalizando as diferenças sociais e negativando toda forma de pensamento que busque pensar diferente do que é passado como "normal". Neste contexto, dentro desta estrutura capitalista, a capacidade de conceber a democracia passa pela posse de bens materiais, marginalizando aqueles que historicamente "não tem eira, nem beira".

Passeando pelas ruas de qualquer cidade podemos perceber diversas imagens sociais que evidenciam esta situação. Numa sociedade onde a educação é vista como um gasto e não como um investimento, vista como algo punitivo e não como algo prazeroso, mostra o tom denotativo que o desenvolvimento e a busca pelo conhecimento tem nesta sociedade. Percebemos que as correntes que nos impedem de viver o livre exercício democrático e a prática da cidadania plena extrapola a diferenciação econômica e social e aí vão muito além do fato de possuir "eira ou beira". O difícil acesso a educação e as atividades culturais alternativas - se é que uma questão está dissociada da outra - são testemunhos da nossa ainda frágil e tênue democracia, que precisa ser ainda muito fortalecida. 



O que precisamos entender é a necessidade de se quebrar as correntes que aprisionam nosso pensamento, permitindo assim a saída da caverna, como podemos ler no "Mito da caverna" de Platão. O acesso a democracia só será exercido em sua plenitude quando a nossa ideia de liberdade extrapolar o liberalismo econômico, que polariza a sociedade e estereotipa expressões culturais. O alargamento do acesso a cultura e a educação colocará no centro do debate as verdadeiras necessidades da nossa população e evidenciará as suas reais urgências. Tal mudança trará novamente para o centro do processo, a necessidade de discutirmos questões fundamentais como a diversidade em todas as suas esferas e a busca pelo entendimento da estrutura política do país, desmascarando a nossa falsa democracia racial entre outras questões.

Muito mais que trocar chuteiras por livros, viver em uma sociedade democrática passa pela compreensão e pelo acesso aos mecanismos que compõe tal democracia, em outras palavras, não basta poder viver em uma sociedade democrática, é necessário que possamos dominar os mecanismos democráticos . A educação é, sem dúvida alguma, o elemento chave deste processo, visto que não se pode colocar "eiras e beiras" na casa de todos. É através do acesso amplo a educação que daremos possibilidades iguais a todos de construírem as "eiras e beiras" que lhes faltam, mas é através da educação que principalmente lhes será permitido compreender o verdadeiro sentido da palavra democracia, e para muito além disto, lhes será dado o direito de exercer de forma plena o ideal democrático.


Escute também a música de Tom Zé: " Democracia"

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