Tentando entender a Escola - Ato I: O "desinteresse" no cotidiano



Prof. Carl Lima
Redação d'O Historiante


Salve, Salve, companheiros/as leitores/as!!! Sabe um daqueles assuntos que volta e meia estamos falando, e quase sempre reproduzindo opiniões de maneira automática, amparado no ouvir dizer e quase nunca pensando, refletindo e de alguma maneira trazendo contribuições perspicazes e elucidativas? Não, eu não estou me referindo ao futebol, tema pertinente das mesas de botequins, ainda mais nesse momento que antecede a Copa de 2014. Também não me refiro a religião, dizem que ela deve ser comentada e não discutida, pois se trata de uma experiência de fé. Tampouco direciono o pensamento para a política partidária, diagnosticando que todo político não presta, que apenas estão a fim de benefícios para si e para seus séquitos. Sem suspense, quero me deter ao entendimento do que seria a Escola. Uma instituição presente em nossa sociedade e que pelo menos discursivamente continua sendo importante e valorizada para quaisquer "bons cidadãos".

Meus pensamentos direcionaram-se, mais detidamente, para os seguintes questionamentos: O que é a Escola e como se constrói seu cotidiano na dita contemporaneidade? Aparentemente são interrogações fáceis de serem respondidas. Mas, adianto que isso pode representear uma armadilha, pois, a instituição escolar conceitualmente é polissêmica. Assim, devemos antes de mais nada perguntar de qual Escola estamos falando e qual concepção temos dela. Além disso, dada a sua importância histórica e sociológica, o certo seria tratarmos não de maneira homogênea e singularista, mas sim, enfatizarmos a sua diversidade, substantivando-a no plural. 



Dessa maneira, a definição poderia partir tendo como pressupostos a sua relação com a estrutura do capital: " A Escola é o espaço da reprodução social e um eficiente domínio de legitimação das desigualdades" (Bourdieu e Passeron); ou ainda pensar ela no que tange como locus de libertação e conscientização: " A instituição escolar deve está voltada para as classes menos privilegiadas, na qual os métodos de ensino devem ser elaborados com o objetivos único de acordar a consciência crítica do educando a fim de desperta-lo para a sua condição de oprimido proporcionando-lhe subsídios para que venha torna-se um agente transformador da sociedade" (José Carlos Líbâneo), ou como um espaço de sociabilidade: "Escola é um lugar onde se faz amigos. Não se trata só de prédios, salas, quadros, programas, horários, conceitos. Escola, é sobretudo, gente, gente que trabalha, estuda, que se alegra, se conhece, se estima ..." (Paulo Freire). Para guiar essas letras, compreendo a escola enquanto um espaço sociocultural que deve ser compreendido  na ótica da cultura, sob um olhar mais denso que leva em conta a dimensão do dinamismo do fazer-se cotidiano, levado a efeito por homens e mulheres; trabalhadoras e trabalhadores; negros e brancos; adultos e adolescentes. Dessa forma, tomo a escola como uma das instituições educacionais de maior credibilidade na comunidade a qual pertence. O seu reconhecimento, possivelmente, advém mais de sua historicidade, que do atual momento vivido. Sua presença institucional impõe-se na realidade da comunidade, formando e educando sujeitos – pelo menos é o que dizem  tanto pra a cidadania, quanto para o mercado de trabalho.




Mesmo reconhecida sua importância a instituição escolar não consegue escapar de uma crise contínua, Verificada nos últimos anos em falas do tipo: “A unidade tal não consegue formar como antigamente"; "os meninos não querem nada"; "só tem vagabundo dentro e nos arredores da escola"; "os professores não estão nem aí para os alunos”. Independente dessas falas resumirem ou não a atual circunstância das Unidades Escolares, temos que reconhecer que mesmo com alguns investimentos por parte dos governos, é visível o estado de abandono e a necessidade de reformas tanto na parte infra-estrutural – falta de carteiras, pingueiras, paredes rachadas, quadra desgastada, banheiro entupido – quanto no que concerne a relação ensino/aprendizagem. Mas o que nos chama mais atenção é a seguinte verbalização, cada vez mais reproduzida: “É completo o desinteresse por parte dessa juventude pela escola” . Seguindo essa linha de raciocínio, o “desinteresse” materializa-se na evasão da sala de aula, na formação de guetos ou de indivíduos isolados que perambulam pelo pátio. Analisando essa questão, torna-se necessário apreender a escola como um espaço dicotômico: de um lado a perspectiva institucional, incluindo aí a organização oficial, regulada por regras e pela moralidade – pautadas pelo regimento escolar – com vistas a unificar e delimitar as ações dos sujeitos; pelo o outro lado o cotidiano que se interpõe com uma trama complexa dos diversos sujeitos que compõe o lócus, apropriando-se do tempo e do espaço, gerando assim, conflitos e disputas endógenas. Dessa tensão entre o institucional/oficial e o cotidiano/paralelo constrói-se a escola como um espaço dinâmico e socialmente desenvolvido. Assim, apreender a escola como construção social,  implica compreendê-la no seu fazer cotidiano, onde os sujeitos não são apenas agentes passivo diante da estrutura.






Portanto, o dito “desinteresse” não é uma atitude que deva ser considerada isolada ou julgada como atitude de rebeldia que se encerra em si, ou ainda, como uma crise geral da juventude sem-limites. Acredito que nesse caso, ele deva ser compreendido dentro da dinâmica interna das relações sociais da própria instituição. Explicando: como já foi dito anteriormente, o ambiente escolar é formado pela perspectiva institucional e pelo cotidiano sócio-cultural, dessa dicotomia constrói-se relações ou micro-relações – numa lógica Foucaultiana – de poder, marcado por uma lógica de determinação – emanada pelo lado institucional – e a contra-determinação, considerada resposta, resistência, estratégias produzidas por aqueles sujeitos que compõem o cotidiano escolar. Para a pesquisadora do cotidiano escolar Áurea Guimarães a burocracia escolar/institucional cria indivíduos “normalizados” habituados à obediência de ordens, regras e hábitos e em contrapartida os que escapam dessa “normatização” são rotulados de marginais, maloqueiros, animais ou desinteressados. Enfim, ao enfatizar as várias vozes, podemos considerar o cotidiano escolar como um cenário no qual ocorre uma luta entre a normatização disciplinar e as ações dos sujeitos após a recepção destas, numa clara demonstração de resistência e construção de sua própria história.

Em quaisquer colégios, notam-se alguns instrumentos que podem ser considerados como coercitivos e determinantes para a compreensão deste dito “desinteresse”. O primeiro deles: a prática da delação. Incontáveis vezes, durante o dia-dia, podemos presenciar os alunos ou funcionários delatarem terceiros. Geralmente acusando-os de indisciplina ou posturas consideradas depreciativas. Segundo Foucault, a escola é um observatório político, um local de observação, pois através da vigilância e do conhecimento que se pode ter do comportamento dos alunos podem-se ter o controle de todos que fazem parte do cotidiano escolar. Assim, a escola caracteriza-se e destaca-se com um aparelho que produz poder. Inferimos que de alto a baixo os efeitos do poder são notados: na escola temos o diretor, os professores, os funcionários e os alunos todos sendo fiscalizados e ao mesmo tempo envolvidos na tarefa de fiscalizar”.

Decorrente dessa prática de delação, instaura-se no cotidiano da escola o chamado “livro de ocorrências”, onde todas as atitudes de indisciplina são lavradas e consequentemente o “réu” punido e responsabilizados por seus atos. É muito comum que as tais punições estejam relacionadas com a atividades lúdicas e extra-curriculares, a exemplo de jogos esportivos, gincanas culturais ou viagens pedagógicas. Ou seja, de acordo ao comportamento do aluno, ele está apto ou não à participar dessas atividades.



Dessa forma, infiro que essas medidas ostensivas para manutenção da disciplina são extremamente excludentes e discriminatórias, pois cria na escola um modelo ideal de aluno e em contrapartida estigmatiza aqueles que não conseguem enquadrar-se. Não sendo reconhecido como tipo ideal, o que lhe sobra é a marginalidade e as variadas alcunhas, dentre as quais o de “desinteressado”.  E agora? O que podemos fazer? Essa é uma de várias situações ocorrente no cotidiano escolar que cabe discussão, e mais que isso, uma boa problematização. Que tal incluir esse tema em nossos papos? Com a palavra, todos nós seres pensantes!!!

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