Livro - O Nome da Rosa – Umberto Eco



Prof.ª Aline Martins
Redação d'O Historiante





A recente abdicação de Bento XVI, algo inédito em 600 anos, e a posterior escolha do Papa Francisco, único jesuíta da História, provocaram alvoroço na imprensa mundial, demonstrando como uma instituição de mais de 2 mil anos ainda possui grande influência na sociedade contemporânea. Mas, sobretudo, estes eventos colocaram em evidência os inúmeros problemas enfrentados atualmente pela Igreja Católica, dentre os quais, se destaca a distância entre o que prega e o que o corpo doutrinário e os fieis efetivamente praticam.

Desde seu surgimento até os dias de hoje, diversos foram os momentos de instabilidade da Igreja e diversas também foram as tentativas de defender seus princípios e de preservá-la. A leitura, ou releitura, da clássica obra de Umberto Eco, O nome da Rosa (1980), é bem interessante para nos ajudar a refletir, mais especificamente, sobre uma dessas diversas crises pelas quais a Igreja passou, além de ser uma deliciosa obra que nos faz vivenciar a atmosfera medieval de fins do século XIV, período em que o renascimento inicia-se na Europa e onde muitos conflitos marcaram a época (teológicos, filosóficos, políticos e sexuais).

O autor remete-nos para o confronto entre o Papa João XXII e o Imperador Luís IV da Baviera, como paradigma da luta entre Igreja e Estado pelo controle da sociedade daquela época. A questão dos universais agitava as universidades, tanto os realistas platônicos, nominalistas seguidores de Guilherme de  Ockham (filósofo, teólogo – principal representante da corrente nominalista) e realistas moderados, como os aristotélicos, esgrimiam-se nas cátedras das universidades. O triunfo de uma dessas correntes provocava forçosamente transformações profundas na Igreja, no Estado, na Sociedade, na Cultura e na Ciência. Era o futuro da civilização e da humanidade que estava em jogo.

A narrativa, um misto de histórica e policial, decorre no apogeu das perseguições pela Inquisição, a qual tentava, a todo o custo, reprimir as diversas doutrinas e seitas hostis ao Papa, eliminando qualquer herege. A história começa a partir da descoberta, por um estudioso, da tradução francesa de um manuscrito do século XIV: o autor é um monge beneditino alemão, Adso de Melk, que narra, já em idade avançada, uma perturbante aventura da sua juventude, vivida ao lado de um franciscano inglês, Guilherme de Baskerville, discípulo de Roger Bacon e amigo de Guilherme de Ockham. O manuscrito narra a vida religiosa dentro de uma abadia beneditina no ano de 1327.

Frei Guilherme é enviado para lá, a principio, para participar de uma reunião dos teólogos de João XXII e os do Imperador. O objeto da discussão é a pregação dos Franciscanos, que chamam a igreja à pobreza evangélica e, implicitamente, à renúncia ao poder temporal. Guilherme de Baskerville, tendo chegado com Adso pouco antes das duas delegações, encontra-se subitamente envolvido numa verdadeira história policial. Um monge morreu misteriosamente, mas este é apenas o primeiro dos sete cadáveres que irão transtornar a comunidade durante sete dias.

O ritmo a que as mortes vão surgindo obedece, aparentemente, a uma sequência apocalíptica. Em cada um dos crimes, algumas circunstâncias coincidem com as palavras pelas quais as sete trombetas do Apocalipse anunciam as catástrofes do final dos tempos. As mortes eram muito semelhantes, as características sintomáticas comuns, eram dedos e línguas roxos, o que apontava evidencias de que as mortes eram causadas pelo mesmo motivo, era a leitura do livro envenenado.

Com ares de Sherlock Holmes, o investigador, o frade franciscano Guilherme de Baskerville, assessorado pelo noviço Adso de Melk, utilizava-se da ciência em suas investigações, apesar da resistência de alguns dos religiosos do local, até que desvenda que as causas do crime estavam ligadas a manutenção de uma biblioteca que guarda, em segredo, obras apócrifas, obras que não seriam aceitas em consenso pela igreja cristã da Idade Média, como o II livro da Poética, que Eco teria atribuído a escrita à Aristóteles e que exaltava a subliminaridade do riso, o que quebraria todo um alicerce dogmático que a igreja católica afirmava.  O acesso a este livro era restrito, por ser considerado um ameaça ao segmento da doutrina cristã. A igreja defendia que a comédia era algo maligno que proporcionava ao homem a falta de temor a Deus, e isso enfraqueceria as bases do poder da igreja sobre os cristãos.        

A biblioteca era o símbolo de uma Igreja conservadora, mestra desconfiada e receosa que obstrui o conhecimento de determinadas doutrinas, e que pretende impedir qualquer progresso intelectual e material, com o objectivo de manter o seu domínio sobre o mundo. Poucos podiam passear por entre as estantes e, entre os monges, espalhava-se o boato de que  demônios e fantasmas guardavam os livros, durante a noite.

Frei Guilherme, porém, não busca simplesmente um culpado, busca a verdade, e é essa filosofia pessoal, que é também o reflexo da dicotomia medieval entre fé e racionalidade, a força  motriz da obra.

Saiba mais:

O livro também foi adaptado para o cinema, num filme dirigido por Jean-Jacques Annaud e magnificamente estrelado por Sean Connery, como o frei Guilherme de Baskerville, e o jovem Christian Slater como o aprendiz Adson de Melk.

A biblioteca que serve como plano de fundo, e personagem principal, é inspirada no conto A Biblioteca de Babel do argentino Jorge Luis Borges onde é apresentada uma biblioteca universal e infinita que abrange todos os livros do mundo.  

Para homenagear o escritor argentino, Eco criou a personagem Jorge de Burgos, que além da semelhança no nome é cego assim como Borges foi ficando ao longo da vida. Outras homenagens também estão presentes nos nomes das personagens: Guilherme de Baskerville que seria como um Sherlock Holmes na história, este tem como uma das suas principais aventuras O Cão dos Baskerville; o noviço Adso, Filho do Barão de Melk, possui uma semelhança entre o seu nome e o de "Watson", fiel escudeiro de Sherlock Holmes, somada à referência latina "adsunt", ou seja, "que está sempre presente".  


Além disso, a morte provocada por intoxicação é uma adaptação do que na realidade aconteceu ao filósofo grego Ampalus Nostramus.


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