"Vai que dá certo?" O Cinema e sua utilização como ferramenta para educar.




Profª Aline Martins
Redação d'O Historiante



Em uma sociedade regida pelas imagens, aprender a ver e, principalmente, ler o que se vê, nos possibilita o estímulo da criatividade, o fortalecimento do senso crítico, a derrubada de preconceitos e a abertura para novas perspectivas. Quanto mais cedo se aprende a ver, mais rápido se desenvolve um cidadão capaz de construir opiniões sólidas, baseadas na reflexão sobre sua realidade e imune a qualquer tipo de manipulação de informação.

A educação audiovisual é necessária. Um filme, por exemplo, vai muito além do simples entretenimento. Nesse sentido, um projeto oferecido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro chamado Cinema Para Todos é muito bem vindo (http://www.cinemaparatodos.rj.gov.br/site/ ). Ele procura democratizar o acesso às salas de cinema através da distribuição gratuita de ingressos de filmes nacionais aos alunos e professores da Rede Pública Estadual. Porém, levantarei alguns pontos, algumas arestas soltas que acredito devam ser aparadas para o êxito desse tipo de iniciativa pedagógica, seja ela proveniente dos governos ou diretamente do professor em sua prática em sala de  aula.     


Há algumas semanas atrás, uma das escolas em que trabalho foi convidada para participar do projeto e, juntamente com outros professores e alunos, fui assistir ao filme “Vai que dá certo” em uma seção fechada apenas para a escola. Sei que o projeto oferece sessões com debatedores e até mesmo com a presença de atores, e também sessões prévias com os professores para avaliar e debater o filme antes de ser exibido aos alunos, mas em nosso caso não houve esse aporte, o que para mim foi uma infelicidade e explicarei o porquê adiante.

A película produzida pela Imagem Filmes, co-produzida pela Globo Filmes, dirigida por Maurício Frias e escrita por Alexandre Morcilo e Fábio Porchat (que também atua no filme) tem sua trama ambientada em São Paulo. Rodrigo (Danton Mello) perdeu tudo de uma vez só: o emprego, a esposa, a casa, o carro, a esperança. Em um jogo de futebol, ele reencontra os amigos de infância e o primo Danilo (Lúcio Mauro Filho), todos fracassados também. E é daí que nasce uma ideia promissora: assaltar um carro-forte da transportadora de valores onde Danilo trabalha. Para cometer o crime aparentemente perfeito, Rodrigo convoca os irmãos “nerds” Amaral (Fábio Porchat) e Vaguinho (Gregório Duvivier), que só pensa em videogame, além do colega Tonico (Felipe Abib).     

Para que o plano desse certo era apenas necessário que eles se concentrassem nas coordenadas, mas o que se dá é uma sucessão de erros que os levam a se envolver com traficantes que financiaram o armamento do grupo, policiais corruptos, um vovô muito louco (Lúcio Mauro) que atrapalha os planos deles e, sem saída, eles recorrem a outro amigo de infância, o político Paulo (Bruno Mazzeo). Tudo deu errado, o roubo não aconteceu e, com o “empréstimo” que pegam do amigo político, aparentemente tudo volta ao que era... Até surgir uma nova oportunidade, abrindo espaço para uma possível continuação.

“Vai que dá Certo” segue a linha de um humor raso, besteirol, que já há algum tempo vem ganhando espaço na telona com exemplares, como “Os Penetras” e “Aí Comeu?”. Este último, aliás, teve uma polêmica atrelada a sua exibição aqui no Rio quando o mesmo Projeto, através de uma promoção, propôs aos alunos que enviassem cantadas para os atores   (http://www.raquelrfc.com/2012/07/concurso-cultural-seeduc-e-ai-comeu.html ).                                                                                   

Filmes cômicos como os citados acima adotam uma fórmula básica: piadinhas ocasionais que pouco ou nada tem a ver com o tema central, mas que deixam a história mais engraçadinha (gags), como as cenas em que Vaguinho e Tonico travam um debate sobre se Batman seria capaz de matar James Bond  durante plena realização do assalto. Com piadas machistas e com algumas piadas mais “apimentadas”, rostinhos conhecidos da mídia, interpretações caricatas, linguagem televisiva e enredos reproduzidos de comédias americanas de sucesso, onde figuras derrotadas pela vida não deixam de fazer piada nem consigo mesmo.        

Há alguns bons momentos em que dá para rir um pouco, além de uma abertura bem legal com jogos antigos e clássicos de videogame, Porém, é um filme fraco com um roteiro cheio de furos e uma apologia “engraçadinha” ao golpe, ao jeitinho brasileiro. O roubo aqui é uma solução às vidas fracassadas e mesmo que existam pensamentos contrários a princípio, os personagens vão justificando seus atos e escolhas no desenrolar dos acontecimentos e do beco sem saída em que aparentemente se encontram. Entretanto, o filme parece ter agradado ao grande público, dada a sua grande bilheteria que ultrapassou a marca de l milhão de espectadores.

Num tempo em que temos agora à disposição a lei federal de incentivo à cultura (Lei nº 8.313 de 23 de dezembro de 1991), também conhecida por Lei Rouanet, fiquei me questionando sobre a opção das produtoras pela elaboração desse tipo de película e porque os mesmos estão ganhando tanto espaço e público. Diante de tantas dificuldades na escola pública e na realidade desses alunos provenientes de uma região bem carente, fiquei me perguntando também o porquê do projeto escolher exibir um filme, sem fazer nenhum tipo de trabalho mais específico com os alunos, que mostra que seguir o caminho mais fácil, roubar, mentir, enganar, pode dar certo... Mas, talvez isso seja assunto para um próximo artigo.

Entretanto, não quero dizer com isso que o professor não possa fazer uso desse tipo de filme. Pelo contrário, o cinema pode ser trabalhado de diferentes maneiras. E produções como essa podem, e devem ser utilizadas, desde que o professor se prepare anteriormente para isso e as problematize com os alunos. Aparentemente divertido e descolado, o filme também trata de algumas questões complicadas e nem sempre os professores se sentem preparados ou à vontade para discutir esses temas de forma democrática. Sem querer, podemos nos pegar impondo nossos valores.                                

Produções como “Vai que Dá Certo” usam situações que, de alguma maneira, tentam representar o jeitinho de sobrevivência do brasileiro médio e assim, não deixam de ser uma espécie de crônica cotidiana, meio torta, da situação social brasileira. Nesse caso, o professor pode trabalhar esse tipo de filme como um pré-texto, ou seja, como uma forma de aquecimento, com a intenção de problematizar temas que deseje tratar com seus alunos. Há pouco compromisso com o filme em si, com a linguagem, com a estrutura narrativa. O compromisso maior é com os temas abordados pela produção: políticos, morais, ideológicos, existenciais, etc. Um filme utilizado como pré-texto pode estimular debates e diversas atividades, especialmente as interdisciplinares.

É extremamente importante que antes de desenvolver a atividade com os alunos, o professor assista ao filme, se possível mais de uma vez, e debata-o com outras pessoas, outros professores, ou seja, que ele se prepare para a exibição do mesmo, verificando, inclusive, a disponibilidade de um espaço adequado. O educador e a escola não devem fazer uso de um filme como um mero entretenimento ou como “tapa-buraco”, quando um professor falta, por exemplo. O professor sempre deve procurar fazer uma introdução do filme, falar sobre a produção, atores, temática, etc. Exibir um filme para os alunos, sem fazer ao mínimo uma introdução é um desperdício do potencial do cinema como ferramenta para educar.

Após a exibição do filme, o professor pode deixar o debate entre os alunos ocorrer por algum tempo e depois começar a inserir os temas que queira abordar com a turma. Para enriquecer o debate, ele pode dividir sua turma em grupos e pedir para que analisem um tema ou personagem específico e compará-lo com a sua própria realidade, logo após, comparar as opiniões de cada grupo com a postura de personagens semelhantes do filme. Além do debate, ele também pode propor pesquisas para os seus alunos e tudo o mais que sua imaginação permitir.

O professor deve criar o hábito de assistir filmes e de exibí-los para os seus alunos, e até mesmo, dentro das possibilidades de sua escola e de seu tempo, criar um cineclube onde possa apresentá-los de maneira regular... Tenho certeza que essa é uma iniciativa que pode dar muito certo.


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