O cotidiano desafiador da Educação de Jovens, Adultos e Idosos na Bahia




Prof. Juliano Mota
Redação d'O Historiante


Carta Aberta


Recôncavo da Bahia, tarde fria de um outono de 2013.

Prezado Ministro da educação, 

Este desabafo é um grito de alerta para uma realidade que preocupa a sociedade brasileira: a educação escolar pública, merecendo da minha parte um olhar especial para a modalidade de jovens, adultos e idosos (EJAI). Como o objetivo de uma carta é comunicar-se com o outro, espero informar-lhe sobre acontecimentos ocorridos nessa modalidade desta região, enquanto amostra de uma realidade que não é tão diferente da maior parte da Bahia e do Nordeste. Neste momento o objetivo desta correspondência não é trazer soluções ou receitas para a resolução dos problemas, mas amadurecer um debate democrático em torno dos obstáculos enfrentados por todos os partícipes do processo ensino-aprendizagem, ilustrando com o cotidiano escolar do espaço em questão, as dificuldades não apenas dos professores e alunos, mas dos porteiros, merendeiras, serventes, direção/coordenação das unidades escolares, as limitações legais, pedagógicas e infraestruturais da EJAI, bem como sua marginalização perante a sociedade, os docentes e muitas vezes por parte dos próprios alunos.

Ao som de músicas que fazem apologia ao sexo, drogas e a realidade da periferia, no gingado da violência e na melodia de uma gíria criada no calor das tardes e recriada na sombra das noites, o professor encontra uma atmosfera imperfeita para o exercício de seu pseudo/sacerdócio, o ato de ensinar.  Que motivação tem um mestre ao entrar em uma sala com 50 pessoas de diversas idades, repertórios, classes sociais e interesses nas condições estruturais e emocionais mais adversas? No início do magistério, ele almeja oportunizar através do conhecimento a transformação positiva da sociedade. Após um curto tempo de contato com esse árduo terreno, o seu objetivo é fazer com que esses indivíduos conquistem ao menos a escolarização mínima para obter no mercado de trabalho, lugar digno. Com uma meia-maratona profissional completada, o desejo é que esses discentes fiquem na escola para não serem aliciados por tudo aquilo que é subversivo e ilegal, e no fim da carreira, apenas turmas que completem sua carga horária e que todos aqueles que estão na escola não lhe deem trabalho. Porém, vale ressaltar que muitos docentes já estão fazendo isso no inicio de seu ofício.




Iniciemos nossa incursão escolar acompanhados pela melodia do desânimo que se confunde com a penumbra da desconfiança na portaria da unidade de ensino. O lugar que deveria ser o “cartão de visita” para o conhecimento é o primeiro local de tensão para quem ali deve zelar para o bem estar, segurança e tranquilidade dos estudantes. O porteiro (quando existe), seja ele(a) concursado(a) ou contratado(a), normalmente a segunda opção prevalece, já não possui uma formação mínima em relações humanas, além disso, tem que lidar diretamente com pessoas que externamente buscam conturbar o ambiente, seja por uma conduta social inadequada ou por trazer o que é ilícito ao meio escolar. Nesse universo de situações perigosas que podem acontecer na entrada, no espaço ou saída da escola, ainda destaca-se a dificuldade em controlar o que adentra a unidade de ensino e as possíveis complicações do uso de tudo que é proibido: armas, entorpecentes, bebidas alcoólicas, etc. Esta tarefa muitas vezes encontra limitações legais e/ou funcionais, seja pelas atribuições do porteiro, seja pelo desconhecimento dos Estatutos da Criança e Adolescente e do Idoso por parte destes, como também da maioria dos integrantes da comunidade escolar. Assim, não se sabe até onde podem interferir naquele cotidiano, inclusive essa dúvida se estende à direção da unidade de ensino, à polícia, ao conselho tutelar e à família, nos momentos em que aparecem indeterminados conflitos.

Ao nos depararmos com a estrutura física da escola (e de tudo que dela é provida) observamos o descaso das autoridades ao citarmos que a arquitetura de tal espaço não é preparada para a manutenção desses indivíduos de forma confortável (principalmente em períodos quentes), sendo desprovida de espaços coletivos de sociabilidade, de  merenda, que muitas vezes é irregular na sua chegada, e o seu cardápio que não atende as especificidades climáticas locais, enfim, desconsiderando-se o perfil do público ao qual destina-se. As condições de trabalho dadas aos serventes e merendeiras não são, na grande maioria das vezes, ideais, desde uma formação mínima e continuada, quantidade de profissionais proporcional a de tarefas, remuneração adequada às necessidades básicas, até a garantia de segurança à sua integridade física, que muitas vezes é ameaçada por alunos e outros que vivem na comunidade.

O problema muitas vezes não é “apenas’’ a falta de papel ou de uma máquina em perfeitas condições de uso para a reprodução de um texto, um laboratório de informática em uma situação ideal de uso e com material humano qualificado para tal, mas a falta de autonomia e apoio de pessoas qualificadas para auxiliar o professor no processo educacional (psicopedagogos, assistentes sociais, psicólogos) e de gestão desse espaço, uma vez que o critério utilizado para ocupar determinado cargo é o da confiança ou político-partidária e não meritocrática como deveria ser. O grande desafio não é construir apenas um espaço adequado às necessidades desse público, mas tecer com os fios do exemplo uma teia cultural que articulasse a preservação do patrimônio público, do respeito ao próximo e do diálogo, para que desta forma o indivíduo reconhecesse na escola não como um lugar de repressão e rebelião, mas como o espaço da unidade em meio à adversidade.

A marginalização da EJAI não se dá apenas pelo descrédito que as escolas públicas têm atualmente perante a sociedade em virtude do permanente estado de greve, baixos índices de aprovação nos programas de avaliação federais, ou vários casos de violência, tráfico de drogas e vandalismo, mas pela falta de perspectiva criada pela forma como muitos gestores municipais e estaduais conduzem o processo de organização do sistema educativo; um diálogo surdo-mudo, na transferência de responsabilidades e no descaso constante com as políticas de permanência e estímulo à utilização da escola como um espaço da comunidade. A descrença por parte do alunado na EJAI e consequente negação da escola como lugar produtivo são o reflexo gerado pelas deficiências que a escola vem acumulando no decorrer do tempo, enquanto um lugar sem atrativos e por um corpo docente desvalorizado pela própria categoria e pela sociedade.

Muitas vezes os palavrões, a depredação do patrimônio público, o desrespeito e até ameaças de morte a professores e funcionários das instituições são reflexos de uma sociedade que não compreende que a educação é um dos caminhos (mas não o único) para a resolução dos problemas sociais e que, em muitos momentos, enviesa a forma de pensar à solução para essas barreiras, discutindo-se apenas sob a perspectiva salarial, não entendendo que um conjunto de fatores é o que justamente compõe o todo. Infelizmente, o ideário de Paulo Freire está cada vez mais distante do seu objetivo: uma educação libertadora, participativa e que preza pela autonomia dos sujeitos, triste e contrariamente diferente do que vemos hoje.       

Atenciosamente,

Prof. Juliano Mota Campos, combatente e sobrevivente da Educação pública brasileira.

*     *     *

Apesar desta triste realidade, bons trabalhos educacionais ainda são muito bem feitos.

O Colégio Padre Ovídio é um destes locais comprometidos com uma educação de excelência, pois tem como missão oferecer uma educação básica de qualidade, na qual o aluno possa aprender a ser, aprender a conviver, aprender a aprender e a aprender a fazer, tornando-se um ser crítico e participativo na construção de uma sociedade mais justa, solidária e cristã.


                                         

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